    Entre o Amor e a Vingana

Jacqueline Baird

       Ttulo original: Pregnancy Of Revenge

Copyright  2005 by Jacqueline Baird
PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQU1N ENTERPRISES II B.V.
Originalmente publicado em 2005 por Mills & Boon London.
Digitalizao: Polyana
Reviso: Sol




 Resumo: Para Jake d'Amato, Charlote Summerville no passava de uma bela alpinista
   social. E ele estava determinado a faz-la pagar por isso. O plano era simples: a
 vingana seria na cama! Na verdade, as intenes de Charlie eram puras e inocentes
como ela. No entanto, ela se viu casada com um homem que parecia desej-la e odi-la.
                     S que agora ela est grvida de um filho dele!




      CAPTULO UM

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      -- Com licena, Charlotte. -- Ted Smith, dono da prestigiada Art Gallery de
Londres, sorriu para a mulher ao seu lado. -- O comprador italiano de "A mulher que
espera" acabou de chegar. Preciso falar com ele e pedir sua assinatura.
      -- Claro. -- Charlotte Summerville, Charlie para os amigos e filha do artista
cujas obras estavam sendo expostas na Art Gallery, observou Ted desaparecer na
multido e suspirar aliviado.
      Finalmente, s. Ela olhou ansiosamente em direo  sada. O senhor calvo que a
olhou de soslaio devia ser o tal comprador italiano. Misturar-se aos grandes escales
do mundo da arte londrina no era seu estilo. Agora seria uma boa hora de sair dali,
decidiu subitamente, e esgueirou-se pela multido.
      Jake d'Amato saiu da sala de Ted Smyth com o quadro comprado. Chegara a
Londres da Itlia a trabalho havia algumas horas. Deparou-se na recepo do hotel
com uns panfletos anunciando os eventos da cidade, e o nome de Robert Summerville
chamou sua ateno. Abriu um que anunciava uma exposio dos ltimos trabalhos do
artista e a imagem de sua irm de criao Anna lhe chamou a ateno.
      Descobriu que o advogado do artista detinha os direitos autorais e legalmente
no havia nada que Jake pudesse fazer para impedir a exposio. Frustrado, percebeu
que era tarde demais para impedir que a tela fosse exposta, mas telefonou
imediatamente para o dono da galeria e a reservou.
      Quando chegou  galeria, j havia controlado os nimos. Sabia que Summerville
tinha uma filha jovem e que o advogado tinha o direito de vender as pinturas em
benefcio dela.
      Mas Jake se surpreendeu ao saber que a prpria filha havia organizado a
exposio. Ela no era a menininha egosta que Anna descrevera, mas uma executiva
astuta. Robert Summerville estava morto e fora da jogada, mas uma filha madura
tomava a situao mais complexa.
      -- Ento, quem  a filha do artista? -- perguntou Jake a Ted. -- Gostaria de
conhecer e oferecer a ela minhas condolncias pela triste perda do pai.
       E perguntar o que pretendia fazer com a quantidade de dinheiro que herdaria.
Nem precisaria perguntar ganncia, pura e simples, era a motivao dela. Por que mais
iria expor aquelas telas?
     Ele odiava Robert Summerville, embora nunca o tivesse conhecido. Mas, pelo
menos, teve a decncia de manter as telas em segredo. Diferente da filha.
      Charlotte Summerville devia ser apontada publicamente como a mulherzinha
gananciosa que era.
      - Aquela  Charlotte, a loura ali de preto, perto do quadro que voc acabou de
comprar. Venha, vou apresentar vocs. Posso tirar a tela agora mesmo e enviar para
sua casa, se quiser.

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      Em vida, seu pai era pintor de paisagens, e foi apenas aps a morte que sua
coleo particular de nus artsticos foi revelada. De repente Robert Summerville ficou
famoso -- ou talvez infame fosse a melhor palavra, pois havia rumores de que havia
sido amante de todas as mulheres que retratou.
      Por mais que amasse o pai, no tinha como negar o fato de que foi o homem mais
ocupado consigo mesmo que conheceu. Alto, louro e bonito, com bastante charme para
convencer uma freira a largar o hbito, ele viveu plenamente a vida de um artista
bomio. Mas jamais amou uma mulher de verdade.
      No, estava sendo injusta. Seu pai a amava, ela sabia. Depois que a me de
Charlie morreu, quando ela tinha 11 anos, seu pai insistia que todo ano ela passasse uma
temporada de frias com ele em sua casa na Frana. E deixou para ela tudo o que
possua.
      Charlie sabia de uma das telas de nu, mas descobriu sobre as restantes ao
arrumar o estdio do pai. Foi como um choque, mas nenhuma grande surpresa. Aquilo
se deveu, em parte,  primeira visita ao pai na Frana aps a morte da me. Ao entrar
no estdio um dia, sem ser convidada, Charlie flagrou o pai nu ao lado da nova
namorada e viu a tela que ele estava pintando. Dali em diante ele sempre mandava as
amantes embora quando Charlie estava de visita.
      Ted examinou as telas e sugeriu organizar uma exposio. A princpio, Charlie se
recusou. No precisava do dinheiro. J se sustentava sozinha desde que o av morrera
e assumiu a administrao do hotel da famlia no Lake District, que foi sempre o
negcio da famlia e seu lar. Mas ela conhecia milhares de pessoas que precisavam
desse dinheiro. Ao menos algo bom resultaria da morte do pai.
      Chegando  sada, as ltimas telas chamaram sua ateno por um instante. A
mulher retratada tinha cabelos impressionantemente longos e escuros, delineando
seus ombros e caindo quase at as coxas. Mas foi o rosto da mulher que de fato
perturbou Charlie. O artista captou o amor e a carncia nos olhos escuros a um ponto
que chegava a ser doloroso de ver.
       Coitada, pensou Charlie com os lbios curvados em um raro cinismo. Como foi
que a mulher no se deu conta de quanto Robert Summerville era paquerador? Das
trinta pinturas da galeria, dez eram estudos de nu de mulheres. Balanou a cabea ao
virar-se e foi. embora.
       Os olhos de Jake d'Amato no se desgrudaram da mulher para a qual Ted
apontara. Devia medir pouco mais que l,75m, avaliou: pernas longas e bem torneadas,
um vestido preto e simples de l moldando o corpo e delineando seios firmes e
arrebitados e uma curva delicada nos lbios e nas coxas. O cabelo era de um louro
cinza e estava armado em um coque no alto da cabea. Os olhos escuros de Jake
brilharam com uma apreciao masculina primitiva. Ela usava pouca maquiagem e
mesmo assim estava bela. Obviamente herdara a aparncia do pai, mas de forma
inocente e atenuada.


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      O corpo de Jake enrijeceu-se e os olhos escuros flamejaram de raiva. Anna
tinha razo. Charlotte Summerville se recusou a conhecer Anna, e seu desprezo pela
ltima amante do pai ficou bvio pelo sorriso cnico que se desenhou nos lbios dela,
seguido de um movimento de desdm ao se afastar do retrato.
      -- Charlotte, querida -- a voz de Ted soou alta e clara--, tem algum querendo
conhecer voc.
       Charlotte se enrijeceu, praguejando baixinho. Relutante, ergueu o rosto,
resignada em tentar agir de forma educada com um velho rico e gordo que foi apenas
ver pinturas de mulheres peladas. Tudo em busca de fortuna.
     -- Aqui est Jake d'Amato. Um grande admirador da obra de seu pai. Acabou de
comprar uma tela.
      Os olhos azuis de Charlie, ainda iluminados de capricho, encontraram-se com os
de Ted.
      -- Sim, claro.
      Seus olhos fixaram-se como que hipnotizados por aquele homem. No era o
velho gordo que pensara -- nada disso.
       Da pele bronzeada saltavam os ossos do rosto at o nariz retilneo e a boca
firme logo abaixo. E, finalmente, com um queixo quadrado e bem definido, aquele
homem era surpreendentemente atraente. Alto, cerca de l,80m, ombros largos, ele
irradiava uma aura de confiana suprema e poder masculino que apagava qualquer
outro homem no recinto. Com os cabelos negros bem ajeitados e cados sobre as
sobrancelhas largas e os olhos escuros, ele certamente era de origem mediterrnea.
Era o homem mais atraente que havia conhecido e ele sorria para ela.
      -- Charlotte. Encantado em conhec-la e sinto muito pela perda do seu pai.
      De alguma forma, Charlie sentiu a pequena mo sendo envolvida por um aperto
masculino forte que no a soltava. E a intensidade com que os olhos escuros do homem
penetravam nos seus chegava quase a assustar.
      -- Obrigada, sr. d'Amato.
      -- Por favor, me chame de Jake. No quero formalidades com voc. -- Ele
apertou a mo dela com delicadeza.
      O calor da mo dele transmitia uma onda de alerta por todo o seu corpo. Um
arrebatamento tomou seu corpo, o que a deixou com mais dificuldade de falar,
conseguindo apenas encar-lo.
      -- O fato de seu pai ter lhe deixado um acervo extraordinrio de obras deve
ser um grande consolo.
      -- . Obrigada -- concordou, desviando os olhos para as mos unidas dos dois.
Cus, controle-se, repreendeu a si mesma, tentando dominar as batidas do corao.
      --  um prazer -- afirmou gentil, dando um rpido beijo na mo dela, antes de
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solt-la. --  uma honra conhec-la. Gostaria de sua sincera opinio sobre a tela que
comprei. -- E a conduziu pela cintura at o retrato. -- Encantador, no? -- Jake estava
decidido a faz-la encarar o rosto de Anna, a mulher que Charlie insultou em vida, mas
que teve prazer em explorar aps a morte.
       O som da voz grave e melodiosa provocou outro arrepio em Charlie. Ela franziu o
cenho. No era dada a fantasias e se assustou com aquilo, ainda mais porque a
impresso que tinha a respeito do italiano estava marcada pela averso que sentia por
ele ter comprado uma das telas de nu. Controlando-se, disse:
        -- Encantador mesmo, sobretudo se voc tiver uma queda por quadros de moas
nuas.
      -- Mostre-me um homem que no tenha, Charlotte, e provo que no passa de um
mentiroso -- afirmou, passando os olhos pelo rosto dela e descendo at os seios
provocantes. -- Embora eu tenha de admitir que prefiro a verso viva.
      Ela no podia acreditar. Jake d'Amato estava flertando com ela. Sentiu os seios
enrijecerem-se sob o suti de renda e, envergonhada, enrubesceu.
      Jake d'Amato calou-se. A atrao sexual visvel daqueles olhos azuis e o convite
dos mamilos apontados marcando o vestido provocavam um efeito inesperado em seu
corpo. Fazia tempo que uma mulher no o excitava daquela forma. O fato de ser aquela
mulher o chocava.
       Estava determinado a apont-la em pblico como egosta, parasita interesseira,
e ir embora. Mas, de repente, o cenrio mudou. Ele se viu imaginando o gosto dos
lbios de Charlotte, os seios firmes e empinados, a boca... E a nica coisa que desejava
agora era despi-la sobre a cama.
      Devia estar enlouquecendo. A famlia Summerville foi responsvel pela morte
prematura de Anna Lasio e pela tristeza da famlia. Constranger Charlotte no era
nada comparado ao tumulto que os Summerville causaram  sua famlia.
       Ele estava ali a negcios com uma reunio atrs da outra pelas prximas duas
semanas. Pela primeira vez, combinar negcios e prazer parecia uma idia muito
atraente. Modstia  parte, sabia que era um bom amante e seria interessante seduzir
a adorvel Charlotte aos pouquinhos at que ela implorasse para dormir com ele, como
o pai fez com sua irm de criao...
        Fazendo-se ainda mais charmoso, murmurou suavemente:
       -- Vejo que a deixei envergonhada, Charlotte. Deve achar que sou um velho
libertino que passa o dia babando por mulheres nuas. Vou lhe deixar em paz. Sou acima
de tudo um homem de negcios e quando vejo um bom, eu o agarro, seja ele uma
empresa ou arte. A pintura  um investimento. No quero parecer insensvel, mas voc
deve saber bem que a obra de um artista falecido  muito mais vendvel que a de um
artista vivo.
        Charlie sabia que essa avaliao cnica estava correta.

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         --  -- murmurou, recobrando a voz.
      -- E vou dizer mais uma vez -- a voz aguda engrossou quando se virou para a
pintura -- essa  a nica pintura que quero ter. Creio que seja a ltima e a melhor de
seu pai.
      Charlie examinou mais uma vez a pintura, em que o pai foi capaz de captar
perfeitamente a essncia da mulher.
       --  linda mesmo -- concordou. Embora pudesse ser a melhor, sabia que no era
a ltima. Havia um retrato semi-acabado de uma ruiva em seu poder... -- Mas no  a
ltima, acho.--Estava prestes a falar sobre o ltimo caso de Robert, esperando
manter o interesse de Jake. Mas o esforo foi em vo; ele no a ouvia mais. Viu os
olhos escuros petrificados e a realidade lhe deu um soco na cara. O homem estava
como que hipnotizado pelo retraio.
       Seu primeiro julgamento sobre Jake d'Amato fora precipitado. Certamente, ele
no era um velho gordo. Muito pelo contrrio. Um homem mais admirvel seria difcil
de encontrar. Mas quanto ao resto, ela tinha razo. Ele era rico e do tipo que gosta de
olhar para quadros de mulheres nuas.
       No era o tipo de homem para ela. Pegou a bolsa e, dando um passo rpido para
trs, aumentou o espao entre eles.
      -- Bem, desejo felicidades por sua compra, sr. d'Amato. Prazer em conhec-lo,
mas estou de sada. -- E embrenhou-se pela multido antes de parecer mais tola que j
parecia.
      O nico motivo pelo qual Charlotte existia era porque Robert Summerville, aos
dezenove anos e estudante de arte, engravidou sua me, e os pais insistiram para que
se casassem. Provavelmente foi a primeira e nica vez que Robert foi coagido a fazer
alguma coisa. Quando se formou dois anos depois, j havia deixado esposa e filha com
os avs maternos em Lake District e sado em busca de sua "verdadeira alma de
artista". Charlie e a me s o viram trs anos depois,  ocasio do inevitvel divrcio.
       Charlie pensou que tudo de que precisava era um simples jantar e dormir cedo, e
no ficar fantasiando sobre um homem desconhecido. Endireitando os ombros, saiu do
prdio apressada.
         Esperava quase no meio-fio e olhava pela rua. Nenhum txi  vista.
         -- Droga -- resmungou.
         -- Isso  jeito de uma moa falar? Que vergonha, Charlotte -- zombou uma voz
grave.
         -- Sr. d'Amato -- disse fria, mas sem conseguir disfarar o rubor das faces.
      -- Jake -- corrigiu ele. -- Qual  seu problema, Charlotte? Talvez eu possa
ajudar.
         A forma acentuada com que pronunciou seu nome foi suficiente para causar

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arrepios.
      -- Costumam me chamar de Charlie, e estou tentando pegar um txi para casa.
       -- Charlie no  nome para uma bela mulher e me recuso a us-lo. Quanto ao
txi, isso no  problema. Meu carro est aqui. -- E apontou para um carro azul-
marinho estacionado a dez metrs de distncia. -- Levo voc aonde quiser.
      -- No, no posso...
      -- Talvez jantar,  claro que voc pode.
       Cinco minutos depois l estava ela sentada no luxuoso carro, enquanto Jake
dirigia, aps t-la convencido a jantar com ele em um famoso restaurante de Londres.
      -- Voc sempre consegue o que quer? -- indagou Charlie seca.
      -- Nem sempre -- respondeu, encarando-a. Estendeu o brao e virou o rosto de
Charlie em sua direo. -- Mas se for algo ou algum que eu realmente desejo, sempre
consigo.
      Charlie engoliu em seco e pensou em uma resposta inteligente, mas lhe faltaram
palavras, enquanto ele escorregava os braos por seus ombros. Os lbios de Jake
cobriram os seus, persuadindo-a a abri-los  suave invaso de lngua. A paixo cada vez
mais forte do beijo incendiou Charlotte por dentro, uma sensao totalmente nova
para ela. De repente, ela o desejou com tanta avidez que ergueu as mos para abraar
aqueles largos ombros, sem alcan-los.
      -- Dio Mio! -- exclamou Jake estremecido, afastando-se dela. Seus olhos
escuros miraram o rosto de Charlie e os lbios suavemente intumescidos.-- Que
mulher!
      Por um momento, Charlie pensou ver raiva nos olhos que a examinavam. Em
seguida recebeu um leve beijo na ponta do nariz.
      -- Prometi o jantar, o resto ter de esperar. -- Ele lanou um sorriso sedutor,
deu a partida no carro e partiu.
       Charlie no abriu a boca. Mal podia acreditar no que acontecera; no era do
feitio dela. Onde estava seu bom senso, seu conhecido autocontrole? Esquecidos em
um beijo. Seu corpo inteiro estava tomado por uma estranha excitao vibrante que
ela nunca imaginou sentir. O mais inacreditvel, porm, era ver Jake to cativado por
ela quanto ela por ele. Sentiu isso pelas batidas do corao de Jake, seus tremores,
pela reao ao interromper o beijo.
      Agora o jantar que ela tanto recusou se tornou uma atraente idia.




      CAPTULO DOIS



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     Era um restaurante francs exclusivo e, assim que entraram, o maitre
acompanhou-os at uma pequena mesa arrumada para dois em um canto ntimo. Ela
recebeu o cardpio e enterrou a cabea nele.
      -- O que deseja comer? Vou escolher o salmo defumado, seguido de um fil. E
voc? O mesmo?
      -- No, Jake -- replicou fria, antes de perguntar ao garom em perfeito
francs o que ele recomendava.
      Charlie pediu como entrada uma salada seguida de peixe.
     -- Ento, Charlotte -- zombou Jake assim que o garom se afastou --, voc 
uma mulher de muitos talentos, parece.
      Charlie direcionou os cintilantes olhos ao homem sentado  sua frente.
      -- Bem, no sou qualquer idiota -- sorriu restabelecendo a confiana.
      Os olhos de Jake brilharam com uma emoo escura e suavizaram-se claramente
quando avistaram as curvas delicadas dos seios de Charlie.
      De repente, a idia de Jake proporcionando-lhe prazer deixou-a ainda mais
corada, mas franziu o cenho. Jake esticou o brao para cobrir a mo de Charlie sobre
a mesa. Por alguma razo o olhar reservado dela o perturbou.
      -- Charlotte, no fique to sria. -- Entrelaando os dedos, ergueu uma de suas
mos e deu delicados beijos. -- Relaxe e aproveite o jantar, enquanto nos conhecemos
melhor. Podemos nos tornar amigos, no  mesmo?
      Amigos? Charlie duvidava conseguir ser apenas amiga de um exemplar supremo
do sexo masculino como Jake. Mas j era um incio.
      -- Amigos. Claro. -- Tentando parecer tranqila, continuou: -- Ento, Jake no
me parece um nome muito italiano.
      -- Minha me foi noiva de um engenheiro do corpo de fuzileiros navais norte-
americano. Ela me deu o nome dele porque ele morreu em um acidente no mar antes
que eu pudesse receber seu sobrenome.
      -- Que triste. Sua me deve ter ficado arrasada, perdendo o noivo dessa forma.
      --  verdade. Ficou arrasada. Jamais olhou para outro homem at o dia de sua
morte. Exceto para mim,  claro. Ela me adorava.
      -- No me surpreendo. -- Charlie sorriu, aliviada por no ter constrangido Jake
com a pergunta sobre seu nome. Na verdade, o clima entre os dois pareceu at mais
relaxado. Talvez uma amizade com Jake no seria to impossvel assim.
      -- Um elogio. Estou lisonjeado.
      -- No me referi a voc. Bem, talvez sim -- acrescentou ela com um risinho. --
Na verdade, estava me referindo  sua me. Depois de se comprometer a se casar, ela
deve ter enlouquecido como qualquer viva.

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      -- No caso de minha me sim, mas isso  raro. -- Ele recostou-se na cadeira com
a mo ainda sobre a de Charlie. -- Pelo que sei, muitas mulheres vem o matrimnio
como forma de dar o golpe do ba.
      A atitude cnica estarreceu-a.
      -- Voc j foi casado?
     -- J, na ingenuidade dos 23 anos. Comprei as alianas, dei dinheiro para o
casamento, fiz tudo o que pude.
      -- E a a deixou, suponho. -- Charlie voltou a pensar se ele j havia sido casado,
mas, sem perguntar, retificou: -- Ou voc ainda  casado.
       Por um instante Jake pareceu espantado, depois riu, mas o humor no pareceu
atingir seus olhos.
      -- As mulheres sempre culpam os homens. Mas voc est errada. Minha noiva me
largou e gastou todo o dinheiro em outra coisa. Ento, no, no sou casado e nem serei.
No  uma instituio em que acredito. Mas chega de falar de mim. Conte-me como
aprendeu a falar francs, e sabe falar alguma outra lngua?
      -- No, s francs. Aprendi na escola. Mas adquiri fluncia porque desde os 11
anos eu passava minhas frias na casa do meu pai na Frana.
      -- Ah sim, seu pai. Eu devia ter imaginado.
      Em seguida o garom chegou com um champanhe Cristal e encheu duas taas.
      -- A ns e ao incio de uma longa amizade -- brindou Jake, erguendo a taa, e
Charlie retribuiu com olhos radiantes.
      Outro garom chegou com os pratos.
     -- Conte-me, voc tem alguma outra famlia? -- perguntou Jake assim que
comearam a comer.
      -- Minha me morreu quando eu tinha 11 anos e minha av, quando eu tinha 17,
meu av foi trs anos depois. Meu pai era rfo, ento agora estou s neste mundo.
      -- Com um pai como o seu, voc teria tanta certeza assim?
     -- Tenho -- respondeu  cnica pergunta com surpresa. Achou ter visto um olhar
amargo nos olhos escuros, mas devia estar equivocada, pois no momento seguinte ele
riu.
      -- Outro engano. Devia ter imaginado que as aventuras de seu pai so mais
fico que fato; fofocas que aumentam o valor de sua obra.
      -- Bem, no sei muito sobre isso -- murmurou Charlie, afastando o prato vazio.
Havia um tom jocoso naquele comentrio que a deixou desconfiada.
       Para Charlie, a hora seguinte passou como numa vaga nuvem de felicidade. Jake
tinha um bom papo e, sem perceber, ela logo falou onde e como morava e que ajudara o
av a administrar o hotel da famlia no Lake Windermere.
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       -- E voc herdou esse hotel, certamente -- acrescentou Jake assim que Charlie
se calou por uns instantes.
      -- Herdei. -- A lembrana da famlia que perdeu anuviou o brilho de seus olhos
por um momento.
      -- Sorte a sua. Eu de certa forma tambm tive sorte. -- Ele comeou a contar
mais sobre seu passado. Depois da morte da me, quando tinha oito anos. Ele morou em
um orfanato e se envolveu com ms influncias. Mas aos dez anos foi milagrosamente
adotado por um homem cuja carteira havia tentado roubar. Esse homem o salvou de
uma vida de crimes e foi o incentivo para ele estudar e se tornar engenheiro da
marinha e dono de sua prpria empresa. Os pais adotivos ainda viviam e ele os visitava
com regularidade.
      Durante o jantar, enquanto bebiam a garrafa de champanhe, Jake conseguiu
deix-la em ponto de ebulio sexual. Charlie nem percebeu que tinha bebido mais da
metade da garrafa de champanhe e, quela altura, enquanto enchia a xcara de caf de
acar, qualquer resistncia ao sofisticado charme de Jake j tinha se esvaecido.
      -- Que bom que voc no  do tipo de mulher que fica se cuidando o tempo todo
-- declarou Jake, examinando a xcara de caf e desviando lentamente o olhar para
seus seios firmes e para seu rosto levemente corado. -- Embora valha a pena observar
sua perfeio -- declarou rouco.
       Ela reconheceu o elogio masculino e a indireta sugesto em seus olhos escuros.
No era de todo ingnua; j havia experimentado a qumica sexual antes, mas nunca de
forma to intensa como agora. Seu pulso comeou a disparar por baixo da pele e
instintivamente ela levou a mo  depresso da base de seu pescoo. A lngua
umidificou os lbios repentinamente secos e Charlie percebeu o olhar de Jake desviar-
se para os seus.
       -- Vamos embora -- ordenou ele de repente, erguendo-se e largando uma pilha
de cdulas sobre a mesa. Tomou-a pelo brao, quase arrastando-a, e murmurou algo em
italiano.
      Ela foi praticamente arrastada para fora do restaurante, sentindo a tenso em
cada centmetro do seu corpo. Jake ento soltou seu brao e a envolveu pela cintura
de forma to possessiva enquanto a conduzia ao carro que ela chegou a sentir
excitao e medo.
       -- Entre -- ordenou ele, escancarando a porta do passageiro e ajudando
Charlotte a entrar. Dando a volta pelo carro, admirou-se com sua atitude. No sentia
nada alm de desprezo por aquele tipo de mulher, no entanto sentia um desejo intenso
por ela. Quanto mais rpido a levasse para a cama, mais rpido o problema estaria
resolvido.
      Jake entrou no carro e se aproximou deslizando a mo pelos cabelos de Charlie
e cobrindo sua boca, a lngua embrenhando-se com voracidade por entre os lbios
delicadamente entreabertos.

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Jacqueline Baird                                            Entre o Amor e a Vingaa
      Ela deslizou-lhe as mos pelo pescoo com uma sbita intensidade, como se
quisesse algo que jamais havia tido. Seus dedos emaranharam-se pelos cabelos densos
e escuros de Jake e seu corpo inteiro estremeceu, quando uma mo forte desceu de
seu pescoo e seguiu pelo vigoroso suor de seus seios.
      Fazia tempos que uma mulher excitava Jake d'Amato to rpida e
intensamente. Rijo como uma pedra, sentiu-a estremecer, ouviu o desejo em seu tom
de voz e quis esgarar aquele vestido preto que a envolvia inteira e tom-la depressa e
 fora. Mas enquanto sua natureza ardente o impelia a fazer exatamente aquilo, o
soar ensurdecedor da sirene da polcia o fez recobrar os sentidos.
       Ergueu a cabea em um movimento brusco, viu a viatura da polcia passar
rapidamente. Praguejou algo em italiano, afastou-se de Charlotte e ajeitou-se no
banco.
        -- Droga! -- Passou a mo pelos cabelos escuros e olhou para a mulher a seu
lado. -- No fao isso no carro desde meus tempos de adolescncia.
      -- Eu nunca fiz isso -- revelou Charlie sincera, emergindo do acesso de paixo
que a havia arrebatado.
      Jake a fitou, pasmado com a revelao, e quase chegou a acreditar. No, no
podia ser verdade. Seu pai era o mestre dos sedutores. Era bvio que ela havia
herdado seu talento. Com a mo menos firme, enfiou a chave na ignio e deu a
partida. Estava furioso consigo mesmo e sobretudo com a sereia de olhos azuis que
provocava nele aquele tipo de comportamento.
      -- Onde voc est hospedada? -- perguntou ele.
      -- Um amigo meu me emprestou o apartamento. -- Ela leu o endereo
rapidamente.
      -- Boa localidade -- disse Jake, cerrando os dentes ao mudar de marcha. Agora
no restavam dvidas de que havia um homem em sua vida; um homem rico, devia ser,
pois possua um apartamento naquela rea. No era de surpreender; aquilo s
confirmava suas suspeitas. Tal pai, tal filha.
      -- E que tal um drinque no meu hotel antes de eu levar voc para casa? -- A
inteno original era agir devagar para atra-la, da forma como seu pai fez com Anna.
Mas agora s pensava em lev-la para cama o mais rpido possvel.
      As faces de Charlie coraram. Aquilo era uma verso para "Na sua casa ou na
minha?". Seja l o que fosse, a vontade era de gritar "Sim!". E ela se sentiu to
vulnervel. Estava irremediavelmente desnorteada. Jamais havia conhecido um homem
como Jake.
       Charlie foi criada em uma casa repleta de adultos e at certo ponto tinha total
liberdade de correr pelas montanhas e penhascos dos seus amados lagos. Seus
passatempos eram velejar e escalar montanhas. Era membro da equipe de resgate
local e da Equipe de Resgate Internacional de Emergncia. Tinha acabado de retornar

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de uma viagem  Turquia, onde ajudou na recuperao de um terremoto, e voltou
direto para o feriado de Pscoa no hotel. As duas semanas que passava em Londres
foram sugesto de Dave, lder de sua equipe. Ele achava que, com a recente morte de
Robert e tendo dois empregos, precisaria de uma mudana radical. Precisava tirar
umas frias, em vez de ficar  espera do chamado de algum.
      Charlie concordou. J tinha estado nos lugares mais cobiados do mundo todo e
agora estava aproveitando a oportunidade para visitar os principais pontos da capital
de seu prprio pas.
      Quanto a homens, ela conhecia muitos em ambiente profissional, mas todos a
tratavam como mais um dos meninos dali e era a forma como gostava de ser tratada.
      O carro parou vagarosamente e Jake virou-se no banco, os negros olhos
brilhando de desejo e encarando os dela.
      -- E ento, um drinque? Este  meu hotel.
      Ela sabia que o que ele oferecia no era s um drinque. O ar no interior do carro
crepitava com a tenso sexual, enquanto ele esperava por uma resposta, e Charlie
sentiu medo. Desviou os olhos dos dele e olhou para a janela. Era um hotel luxuoso, um
dos melhores da cidade, e ela sabia que no seria capaz de... ainda no.
      -- Acho que j bebi o suficiente. Obrigada mesmo assim.
       Os olhos de Jake apertaram-se ligeiramente e ela ficou imaginando se ele no
ficou aborrecido. Mas ele ergueu os ombros.
      -- Voc  quem sabe. -- Deu-lhe um beijo em uma das sobrancelhas e ligou o
carro, dizendo: -- Pego voc amanh para almoar ao meio-dia. E continuamos o que
interrompemos.
      Ela ficou aliviada por seu comportamento virginal no ter arruinado suas
chances com ele.
      -- Estou aqui de frias, fazendo programas tursticos e queria visitar o Museu
Britnico amanh.
      O instinto de Jake o impelia a lev-la para cama, mas o olhar azul quase
amedrontado de Charlotte desconcertou-o. Talvez ela at fosse egosta e
interesseira, mas isso no queria dizer necessariamente que era promscua. Jake
tambm era bem exigente. Preferia escolher as amantes com cuidado e seus casos
aconteciam com discrio, dada sua exposio nos negcios internacionais.
      A nica razo de estar sem uma amante agora se devia, por incrvel que parea,
ao pai de Charlotte. Seu falecimento criou uma srie de circunstncias que
mantiveram Jake na Itlia e ele no pde dar a devida ateno  ltima amante,
Melissa, uma modelo de Nova York, que o deixou por outro homem rico.
      Ele parou o carro e saiu para abrir a porta do carona.
      -- Vamos Charlotte, eu levo voc at l dentro. Amanh vamos fazer os dois.

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Almoamos e vamos ao museu. -- Com os dedos entrelaados, ele a conduziu at o
elevador. Mal sabia ela que no corria mais risco algum naquela noite. No chegaria a
ponto de dormir com ela na mesma cama em que ela dorme com outro. -- At amanh.
-- Ele beijou-lhe a testa e foi embora.




        CAPTULO TRS


      Jake d'Amato andava inquieto pela enorme sute do hotel. Estava frustrado
demais para dormir, e tudo por causa daquela loura de olhos azuis. Nem tudo. A
pintura de Anna tambm no saa de sua cabea.
      Foi preciso todo o seu autocontrole para ficar naquela maldita galeria e admirar
o retrato. Anna era a coisa mais prxima que teve como irm, e pareceu quase
incestuoso v-la exposta daquela maneira.
      Quanto ao ttulo "A mulher que espera", que adequado!, pensou ele sombrio. Ela
esperou e sonhou por dois anos que Robert Summerville se casasse com ela. Jake tinha
12 anos quando Anna nasceu e, para seus pais de criao, o nascimento dela pareceu
um milagre. Jake adorava o bebezinho e o viu crescer e se tornar uma menina
adorvel.
      Quando Anna completou 21 anos, Jake, ento presidente da corporao
d'Amato Internacional, deu Uma luxuosa festa em seu iate. Anna parecia ser uma
jovem feliz e equilibrada, cheia de entusiasmo com o incio da carreira de artista
grfico. Satisfeito por ela estar bem, Jake continuou com sua vida ocupada e
respeitava o fato de, por ser adulta, Anna ter o mesmo direito.
        Mas no mais.
      A raiva e o arrependimento cresceram dentro dele. Como ela podia ter tido um
caso com um cara com idade para ser seu pai e ainda ter posado nua para ele? Como
podia ter dirigido completamente bbada e se matado? Como podia ter deixado um
homem fazer aquilo com ela?
        No havia resposta, e o fardo da culpa pesava-lhe na mente desde a morte de
Anna.
      Ele sabia do seu relacionamento com Summerville. Ela tinha lhe contado num dos
raros almoos que tiveram em Nice dois anos antes. Ele preferiu no questionar a
escolha dela, pois ela estava feliz e confiante de que era apenas uma questo de
tempo para eles se casarem.
     Mas agora, ao lembrar como ficara chocado quando Anna apareceu em sua casa
em Gnova h cinco meses, arrependeu-se amargamente de no ter investigado
Summerville assim que ouviu o nome.

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      Parecendo apenas uma sombra da moa de antes, Anna chorou no ombro do
irmo e contou a triste histria do caso. Ela tinha largado o emprego e estava morando
com o cara fazia mais de um ano, mas Robert a tinha mandado embora trs meses
antes de ele morrer, tudo por causa da filha.
      Ele explicou que ela era sua nica filha e que tinha sido mimada pela me. Era
insegura e muito possessiva em relao a ele e se recusava a conhecer Anna. Ele no
queria chatear a filha, ento Anna teve de ir embora enquanto a filha dele estava em
casa. Mas ele garantiu a Anna que seria por apenas algumas semanas. Em outras
palavras, para citar Anna:
      -- A filha de Robert  uma garotinha mimada e egosta. -- Anna nem ficou
sabendo da morte a tempo de ir ao velrio. Por ele, depois de ouvir a histria, se o
homem j no estivesse morto, Jake o teria matado com prazer.
      A morte trgica de Anna algumas semanas depois do ltimo encontro dos dois o
arrasou, e o fato de o homem que Jake considerava ser o responsvel indireto j estar
sete palmos abaixo da terra e fora de alcance tambm no ajudou. E os pais de Anna
adoeceram de tanto sofrimento.
      Jake se considerava um homem do mundo moderno e sofisticado. Gostava de
mulheres e raramente ficava sem uma amante. Ao longo dos anos, teve vrios casos, e
pelo menos duas dessas mulheres apareceram nuas em capas de revistas. Aquilo no o
incomodava em absoluto. Mas no via nenhum paradoxo em sua reao  exposio
pblica de Anna.
      Porm, o que pensou depois de conhecer a adorvel Charlotte, foi numa forma
de se vingar da famlia que causou a morte de Anna... e ainda sentir prazer.
      Dando meia-volta, foi para o banheiro tomar um banho frio.
      Charlie se olhou uma ltima vez no espelho do armrio. Calas cinzas justas
delineavam suas longas pernas e, para combinar, ela vestiu um suter de caxemira
rosa. Um cinto de corrente circundava seus quadris. Uma bolsa e mocassins cinza
completavam o modelito.
      Na noite passada, revirando-se na cama sem conseguir dormir, pensando em
Jake e relembrando cada beijo e toque, seu corpo desejando o dele, ela chegou a uma
importante deciso. Quando tivesse a chance, investiria num relacionamento com
Jake. Ele declarou que poderiam ser ao menos amigos, mas sua sinceridade natural a
forava a admitir que desejava muito mais dele. Ela no tinha experincia no amor,
mas o intenso desejo fsico por Jake, a enxurrada de sentimentos que consumia todos
os seus sentidos, isso tinha de ser amor ou algo muito parecido.
      No trabalho com o Resgate Internacional de Emergncia, ela testemunhou
muitas mortes e destruio. L aprendeu que a vida  preciosa e pode ser tirada num
piscar de olhos por uma fora da natureza. Ela era uma virgem de 26 anos,
provavelmente porque a vida inteira foi urna moleca e os poucos homens que conhecia
a consideravam mais um colega que uma mulher. No era totalmente inexperiente; j

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tinha beijado homens, mas no achou nada demais. No entanto, tudo isso mudou na
noite passada quando conheceu Jake.
      A voz do porteiro ecoou no interfone dizendo que um sr. d'Amato tinha chegado
e perguntando se deveria deix-lo subir. Ela respondeu afobada:
      -- No precisa. J estou descendo.
      Suas pernas tremiam no elevador e, quando as portas se abriram, Charlie
respirou fundo, saiu e congelou na mesma hora, seus olhos azuis fixos no maravilhoso
macho apoiado no balco da recepo.
      Jake estava lindo. Ele estava usando um jeans preto que mostrava pernas longas
e coxas firmes e msculas. Uma camisa preta de botes, aberta em cima, revelava o
pescoo grosso, e uma jaqueta de couro preta ajustada nos largos ombros completava
a imagem.
      -- Charlotta... finalmente. -- Ele carinhosamente se demorou no nome dela,
devorando-a com os olhos enquanto em poucos passos aproximou-se. -- Voc est linda.
-- Antes que ela pudesse tomar flego, uma grande mo masculina envolveu-lhe os
quadris, enquanto a outra subia por suas costas e se emaranhava em seu cabelo solto.
       O suave toque dos lbios de Jake nos seus fizeram suas pernas bambearem e,
quando ele lhe abriu os lbios, a lngua no interior de sua boca mida, um suave calor
invadiu seu corpo.
       Charlie tinha se surpreendido com os beijos no carro na noite passada. Mas
agora, em contato ntimo com o corpo rijo e grande de Jake, percebeu perplexa e
satisfeita a fora da bvia excitao que ele sentia por ela. Com os joelhos fracos de
desejo, ela se comprimia inconscientemente contra seu corpo forte, sentindo-lhe o
largo peito inflar.
      -- Prometi um almoo -- disse Jake nos seus lbios e levantou a cabea.
      Charlie ergueu os olhos.
      --O qu? -- murmurou, passando a lngua no lbio inferior.
      -- Almoo. -- Jake deu um passo para trs, segurando-lhe nos ombros. -- Antes
que faamos algo digno de comentrios.
      Dando-se conta de onde estava e de que o encarava demasiadamente voraz, ela
baixou a cabea, corando.
      -- Sim, claro -- murmurou ela.
      -- Uma dama que ainda enrubesce. Gosto disto -- elogiou, enquanto a conduzia
para fora do prdio.
       - Ele parecia to atraente e to diferente de qualquer turista que ela j tivesse
visto que Charlie comeou a rir.
      -- Eu devia saber que voc teria um outro motivo. No sou eu, mas o vinho que o

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motiva.
      -- Voc no acreditaria nos meus motivos -- respondeu Jake secamente,
puxando-a para seus braos e beijando-a com uma urgncia que a deixou zonza. To
zonza que ela no viu o cinismo nos seus olhos escuros.
      Jake manteve a palavra, e eles dividiram uma garrafa de vinho no restaurante
do Museu Britnico. Depois de se demorarem no caf e no conhaque, foram visitar as
exposies.
      Eram 19 horas quando voltaram para o hotel de Jake.
      -- O que quer fazer agora, Charlotte? Quer jantar comigo ou voltar para casa?
-- Os dois sabiam qual era verdadeira pergunta. O dia todo seguiu naquela direo.
       Charlie ergueu o rosto e viu seu prprio desejo refletido no brilho daqueles
olhos. A fora da emoo que a inundava a manteve sem palavras por um momento.
      -- Podemos parar por aqui. -- Jake ouviu a si mesmo dizer em uma
surpreendente crise de conscincia. Tinha apreciado a companhia de Charlotte. Em
outras circunstncias, ele sabia que a namoraria; e ainda estaria determinado a lev-la
para cama.
       Ele passou um dos dedos no rosto macio dela, deslizando pelo pescoo, parando
e sentindo sua pulsao acelerada. Ela o queria, ele sabia, mas ainda hesitava. Se fingia
ou no, ele no sabia, mas ele conhecia bem as mulheres e sabia que todas buscam um
relacionamento duradouro. Charlotte no seria diferente.
      -- O que voc decidir. Fico em Londres por duas semanas a trabalho. -- Ele
vasculhou o corpo de Charlie com o olhar, registrando os mamilos firmes embaixo do
suter. -- E depois de quanto nos divertimos hoje... Se o trabalho permitir, adoraria
explorar a rota turstica com voc, Charlotte.
       A nica rota que interessava a ele era a das curvas do delicioso corpo de
Charlotte, cada montanha e cada vale secreto, at se deleitar nela. Ele no era to
louco para lhe dizer isso.
       Nas primeiras horas da manh, Charlie j estava enfeitiada por Jake. Agora,
com o impacto de seus olhos profundos queimando os dela, e seu desejo de v-la de
novo, pronunciado numa voz rouca que ecoava na mente dela, ela sabia que aquele era o
momento da verdade. Ele disse na noite anterior que nunca se casaria, ento ou ela
teria de aceitar ter um caso por algumas semanas ou ir embora. Com uma clareza
incrvel, ela percebeu que no tinha escolha. No podia mais negar seu instinto sexual,
um instinto que tinha acabado de descobrir e que s sentiria com Jake.
      Charlie respirou fundo.
      -- J andei muito por hoje.
       -- Eu tambm. -- Ele pegou-lhe a mo mais uma vez, entrelaou-lhe os dedos e a
levou para dentro do hotel.

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       Por um lado, Charlie no conseguia acreditar no que fazia enquanto Jake a
conduzia para o elevador e as portas de metal se fechavam. Ela o espiou rapidamente
atravs do espesso vu de seus clios. Ele era to atraente, to masculino que bastava
olhar para ele e seu corao acelerava. Mas no era apenas a aparncia de Jake; ela j
tinha visto homens com feies mais bonitas. Era uma ligao intensa inacreditvel.
      -- Chegamos -- disse Jake, colocando a mo nas costas de Charlie, com o corpo
tenso enquanto a tirava do elevador e a conduziu a uma porta bem em frente. Passou o
carto na porta e entraram na sute. Ele lutou contra o instinto de simplesmente
carreg-la para o quarto. Tirou a jaqueta e foi para o bar.
       -- O que quer beber? -- Virou-se para olhar para ela e ficou esttico. Como era
bela! E a forma como ela preenchia aquele suter o angustiou o dia inteiro.
       Parada onde ele a tinha deixado, Charlie examinou o quarto elegante. Era
luxuoso. No esperava aquele comportamento de Jake. Achou que ele a tomaria nos
braos e faria amor apaixonadamente com ela. Como era ingnua! Jake era um
sofisticado homem do mundo, um homem de discernimento;  claro que nunca seria to
indelicado. Mas ela estava errada de novo.
      -- Eu... -- Ela ia pedir um copo de suco, mas no teve chance.
      -- Dane-se a bebida. -- Ele a puxou contra seu peito. A boca experiente buscou
a de Charlie, que deu um leve gemido, e a lngua invadiu os lbios entreabertos com um
efeito devastador.
      Charlie no sabia o que tinha acontecido. Antes aqueles beijos a excitavam, mas
paravam abruptamente e a deixavam desejando mais. Agora Jake no demonstrou tal
hesitao. Sua lngua se enroscava na dela, acendendo uma paixo ardente. Os braos
lhe envolviam fortemente, pressionando-a contra seu corpo excitado. Os dedos finos
de Charlie se arrastavam pelo peito largo de Jake e um deles agarrou um dos botes
da camisa.
      Sentiu-o sorrir quando ele murmurou contra seus lbios:
      -- Isso, tire para mim.
      Charlie corou. Seu corpo queimava e o dedo se flexionou contra o peito de Jake.
Ousaria ela? Sim, era isso que ela queria. Abriu um boto e sentiu um frio no estmago
enquanto os dedos sentiam a pele quente abaixo.
      -- No pare agora -- suspirou Jake com as mos acariciando-lhe as costas. -- Ou
prefere que eu a dispa primeiro? -- A boca sensual provou a dela novamente e desceu
mais para a elegante curva de seu pescoo. -- Agora me diga o que quer: eu prometo
satisfaz-la.
      O que ela desejava era Jake, e os dedos dela, com uma destreza que no
conhecia, desabotoaram rapidamente a camisa. Ela arregalou os olhos azuis ao ver o
peito largo e bronzeado e os cachos negros que acentuavam os peitorais daquele
homem. Ela pressionou-se contra ele com as mos investigando seu peito nu. Sentiu o

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calor em suas palmas e levantou seu olhar admirado para ele.
      -- Voc  lindo -- murmurou.
      -- Acho que essa fala  minha -- brincou Jake, e seus olhos brilharam com uma
ponta de satisfao masculina. Seus lbios tocaram os de Charlie, enquanto ele a
apertava com fora contra si, beijando-a to profundamente que, quando ele a soltou
subitamente do calor de seu corpo, ela estava sem flego, as pernas bambeavam e ela
mal conseguia ficar de p.
      Ela no precisava ficar de p.




      CAPTULO QUATRO


      -- Aqui no  o lugar -- disse Jake, tomando Charlie nos braos. -- E ainda
estamos muito vestidos -- completou com um sorriso brincalho enquanto ia para o
quarto e a colocava no cho em frente a ele, antes de se afastar, tirar os sapatos e a
camisa.
      A viso parcial do largo peito no a tinha preparado para a incrvel beleza do seu
trax nu. Os ombros eram largos, o peito vasto terminando em uma cintura afinada, a
pele brilhava como ouro polido, contrastando com o plo negro cacheado que cobria o
corpo forte. Os longos braos eram firmes, musculosos e tambm cobertos de plo.
As mos... as mos desabotoavam a cala. Charlie engasgou e o corao acelerou.
      -- Algo errado, mia bella Charlotta? -- Suas mos pararam na cintura de Charlie,
que tremia com a intensidade do desejo que sentia.
       -- No. Est tudo perfeito. -- Ela lutava para se igualar  sua sofisticao, mas
a voz tremia levemente.
      -- Mas voc ainda est muito vestida. Deixe-me ajud-la -- sugeriu ele com a
voz rouca, enquanto seus dedos puxavam seu suter para cima.
      Hipnotizada com a intensidade daquele olhar negro, Charlie levantou os braos
para ele lhe tirar o suter. As mos deslizaram pelas costas nuas dela e o suti seguiu
o mesmo caminho do suter.
      -- Maravilhoso -- suspirou Jake enquanto suas mos subiam para tocar os seios
firmes.
      Charlie inspirou um ar quente, seus seios pesaram de repente e os mamilos
endureceram como setas. Nunca imaginou que pudesse ficar seminua na frente de um
homem sem sentir vergonha, mas corou ao ver que ele a examinava.
       -- No tem por que corar. Voc tem seios perfeitos e mal posso esperar para
ver o resto.

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      Jake desceu as mos dos seios, no sem antes acariciar os mamilos enrijecidos
com dedos experientes, enquanto voltava a beij-la com habilidade ertica, em seguida
tirando-lhe a roupa com calma.
      Ela no conseguia parar de olhar Jake nu. Ele era musculoso, tinha a pele
dourada, a barriga malhada e os quadris finos.
      Com os olhos bem abertos, o rosto queimando como o resto do corpo, pela
primeira vez ela se via diante de um homem maravilhosamente viril e excitado, e no
conseguia desviar o olhar.
       -- Deixe-me ajud-la -- completou ele, baixando a cala e a calcinha com uma
habilidade adquirida com anos de prtica. Ele a tomou nos braos e a deitou na cama.
      -- Inacreditvel -- murmurou Jake, examinando a pele clara e macia e os
mamilos rosados de seus seios exuberantes. Envergonhada, Charlie se protegeu com as
mos do olhar vido de Jake.
      -- No, no faa isso -- reclamou Jake e sentou-se a seu lado, pegou-lhe as
mos e as pressionou abertas contra a cama. O olhar negro percorreu todo o seu
corpo. O corpo dela era curvilneo, mas perfeitamente musculoso, com seios firmes e
belos, a cintura fina, quadris largos e pernas longas e fabulosas. -- Voc 
absolutamente maravilhosa -- disse ele rouco, retendo os olhos nos mamilos rijos
antes de olh-la no rosto. -- E  muito sensual. -- E ele cobriu-lhe a boca com a sua.
      A sensao de um corpo sobre o outro e a magia daquela boca sensual, as lnguas
roando-se, o sabor de Jake... Charlie perdeu todas as inibies. Ela tentou soltar as
mos.
      -- Por favor, quero toc-lo-- disse com sinceridade ingnua.
       -- Claro. -- Jake riu, soltando as mos. -- Pretendo tocar cada parte do seu
corpo, minha doce Charlie, de todos os jeitos. -- E beijou o pescoo dela, chupando-lhe
sobre a pulsao acelerada sob sua pele, antes de descer para lamber e chupar os
mamilos rosados com os dentes e a lngua, enquanto a mo descia pela curva da cintura
e alcanava a parte interna da coxa.
      Charlie afundou as mos no cabelo vasto e negro de Jake, as costas arqueadas
em direo a ele, e gemeu alto com as maravilhosas sensaes que percorriam desde
seus seios at o alto das coxas. Ele beijou e acariciou o caminho sensual at o umbigo
e acompanhou a linha do quadril e das coxas, descendo at os ps com uma fome e um
erotismo que a fizeram se contorcer de prazer, antes de beij-la outra vez com uma
paixo possessiva retribuda com uma entrega total.
      Ela o envolveu com fora, incendiando-se por ele. As mos percorreram os
ombros largos e musculosos, passaram pelas elevaes da coluna e pararam nas
grandes escpulas. Ela se pressionou contra ele e roou os mamilos sensveis de seus
seios na parede dura do peito de Jake, deliciando-se com a excitao que isso lhe
proporcionava.


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       Era como se outra mulher tivesse assumido seu corpo, uma mulher sensual e
liberal, e ela se roou contra a curva firme daqueles ombros, gemendo quando dedos
brincaram em seus seios. A mo de Jake escorregou da coxa de Charlie para mais
perto do centro de sua feminilidade, e ela se contorceu com uma antecipao deliciosa.
Ela estava molhada, quente e tomada de desejo por ele, e abriu as pernas
instintivamente. Baixou a cabea procurando por um mamilo masculino, com uma das
mos passando pelo quadril e procurando outra coisa.
      A mo do italiano correu pelos cabelos de Charlie.
      -- No to rpido. Quero que isto seja bom para voc, quero que dure.
      Com os olhos cheios de paixo, ela olhou para aquele rosto, os olhos negros, o
cabelo desgrenhado e a boca pecadora que lhe sorria. Era o sorriso que a estimulava
mesmo com suas entranhas se derretendo por ele. Atrevidamente, seus dedos longos
deram a volta pelo quadril masculino, tocando o longo membro aveludado, e ela o ouviu
gemer.
       -- Por que esperar? -- perguntou ela sem flego, com os olhos de safira
cintilando de desejo. -- Sempre podemos repetir.
      Jake no era feito de pedra, embora naquele instante estivesse to duro quanto
uma. Ele pegou a mo de Charlie e a puxou para o prprio peito. Dio, como era
tentadora. Uma vez jamais bastaria com essa mulher e tomou-a pela boca com uma
avidez selvagem que mal podia controlar.
       Charlie ia encher de ar os pulmes vazios quando Jake interrompeu o beijo,
baixou a cabea e brincou com a lngua novamente em seus seios, ao mesmo tempo em
que ela sentia longos dedos abrindo caminho pelos cachos dourados entre suas coxas e
habilmente entravam em seu mido corao feminino. Ela passou os braos em volta de
Jake e o abraou, iando os quadris da cama, enquanto ele acariciava e vasculhava seu
interior apertado e macio, at que ela tivesse certeza de que no agentaria mais. Ela
sentia o corpo queimar e ficar tenso de excitao.
      Jake ergueu a cabea, com seus olhos de piscinas negras, pele bronzeada sobre
a grande estrutura ssea de seu rosto.
      -- Voc me quer.
      -- Estou louca por voc -- gemeu ela. Ele se deitou por cima dela, e ela nem
percebeu que ele pegou alguma coisa em cima da mesa de cabeceira. A sbita carcia
daqueles dedos longos a levou  loucura novamente.
      -- Isso -- rosnou Jake e, com um movimento ligeiro, segurou os quadris de
Charlie e a levantou.
       Ela sentiu o membro rijo dele toc-la, acarici-la uma, duas vezes. Seu corpo
inteiro tremeu, e ela respirou fundo quando ele a penetrou com um nico e poderoso
movimento.
      Jake parou quando ela deixou escapar uma hesitao de protesto. Ele era um

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homem grande para acomodar, ele sabia, e ela era to apertadinha que chegou a
pensar que j fazia algum tempo que no transava. Ele retrocedeu um pouco, a
penetrou devagar e profundamente e sentiu os msculos sedosos o apertarem.
      A dor sbita e ligeira pegou Charlie de surpresa, mas foi instantaneamente
esquecida quando Jake a penetrou mais fundo, e nesse momento ela enlouqueceu.
Gritou:
      -- Isso, Jake, assim.
      As incrveis sensaes convulsionavam seu corpo esguio com um prazer intenso
que acabava com todas as suas iluses ingnuas e a deixavam tremendo de prazer.
Ento era... assim. Mas o pensamento no se formou completamente, e Jake a
penetrava com mais fora e rapidez, em um ritmo selvagem e primitivo que a deixava
ainda mais excitada.
      Charlie se agarrou a ele com uma febre de desejo, sem ver que suas unhas se
enterravam na carne do italiano. Ela sentiu como se ele a tivesse tirando de seu
prprio corpo e a levando para um lugar onde nada existia a no ser este corpo firme e
quente que a preenchia e possua. E ela nem sequer percebeu que pedia sem flego por
mais enquanto ele captava o som ertico com a boca. Ela sentiu o grande corpo msculo
estremecer violentamente e gritou o nome de Jake enquanto ondas sucessivas de
sensaes explosivas a levaram a um repouso esttico.
      Lentamente Charlie abriu os olhos. Jake estava apagado sobre ela, com os olhos
fechados. Os dois corpos estavam midos de suor, e uma profunda sensao de paz
tomou conta de Charlotte. Jake era o homem de sua vida.
      -- Grazie, Charlotte -- murmurou Jake ao p do seu ouvido, afundando o rosto
em seu cabelo sedoso e perfumado. -- Foi fantstico. Voc  uma mulher e tanto. -- E
seu corpo pesado levantou-se da cama.
       -- Vou ao banheiro jogar isto fora e pegar mais. A menos que voc queira fazer
isso para mim -- sugeriu ele, brincando.
      Esparramada na cama completamente nua, ela olhou confusa para aquele rosto
sorridente, registrando os negros cabelos caindo sobre a testa, os olhos escuros e a
boca mscula. Ele era maravilhoso e era seu. Seus olhos vasculharam atrevidamente o
membro nu e s ento ela se deu conta do que ele tinha dito.
      -- No, acho melhor no. --  claro que ele tinha usado preservativo; no era
nada para se envergonhar, na verdade, ela deveria ficar grata, mas isso no impediu
que ela enrubescesse e puxasse o lenol para cobrir seu corpo nu,
      Jake deu uma gargalhada.
      -- Voc  incrvel...  extremamente atraente e verbaliza o que quer, mas
mesmo assim fica vermelha como uma colegial.  um truque e tanto. -- Balanou a
cabea e foi para o banheiro.
      Charlie no sabia se ficava lisonjeada, porque ele a achava incrvel e sensual, ou

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se sentia afrontada, porque ele achou que o embarao dela era um truque. "Quem me
dera", pensou ela tristonha. Talvez agora, que era uma mulher de verdade, a vergonha
terminasse, e isso a levou a outro pensamento. Como Jake no percebeu que era seu
primeiro amante? Talvez, se ele soubesse a verdade, no teria tocado nela, e ela ficou
imaginando quantos anos ele tinha. Trinta e poucos, quem sabe, com um corpo timo.
Um corpo que ela agora conhecia em todos os seus detalhes ntimos.
      Jake voltou para o quarto com um roupo e parou. Ela era a mulher mais
naturalmente sensual que ele conhecia.
      -- Querida, estou com fome. -- No era em comida que ele pensava. Com o lindo
cabelo dela esparramado pelo travesseiro, ele sentiu uma estranha necessidade de
proteg-la, e, como o movimento instantneo que sentiu na virilha o lembrou, em todos
os sentidos.
        O pensamento o perturbou e suas sobrancelhas pesadas franziram. Sua inteno
inicial foi simplesmente levar Charlie para a cama e, depois, dispens-la. Mas com seu
corpo maravilhoso estremecendo sob o dele, seu interior to quente e apertadinho,
no conseguiu cumprir o que impusera a si mesmo. Refm do prprio desejo, ele a
tomou com uma fora que no conseguia controlar, e quando ela se contorceu
pronunciando seu nome, ele a seguiu, algo que raramente acontecia com ele.
      -- Vou pedir o jantar. Venha quando estiver pronta -- disse Jake secamente e,
dando meia-volta, saiu do quarto.
      Charlie ficou chocada com sua sada abrupta. Mas a noite ainda era uma criana,
pensou ela com um sorriso secreto nos lbios, e Jake era seu amante. Ela se levantou
da cama e foi para o banheiro.
      Ao entrar no chuveiro, ela abriu as torneiras e deixou a gua numa temperatura
agradvel. Ento isso era o amor. Ela suspirou, deixou a cabea cair para trs, fechou
os olhos e comeou a ensaboar braos, ombros e os seios firmes. Ela acariciava a pele
macia e se lembrava de Jake a tocando ali, em toda parte com incrvel paixo, e ela
quase gemeu.
       Jake deu uma gorjeta para o garom e voltou para o quarto. A cama estava
vazia. Ento, ouviu o barulho da gua. Entrou no banheiro silenciosamente e, por um
momento, ficou desorientado, com o corpo tenso ao ver a silhueta de Charlotte
refletida vrias vezes nas paredes espelhadas. Sua cabea pendia para trs, o cabelo
escorrendo molhado pelas costas, as mos passando sobre os seios e sobre o corpo.
Nunca tinha visto nada mais ertico em sua vida, mas era a viso do prazer sensual no
belo rosto dela que o excitava numa velocidade impressionante.
      Charlie no ouviu a porta do banheiro se abrir. A primeira pista que teve de que
no estava sozinha foi uma voz rouca falando atrs de si:
      -- Posso?
      -- O que est fazendo? -- perguntou ela. Ele estava nu, com a gua tornando seu


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cabelo negro uma touca brilhante.
      -- O mesmo que voc, minha doce Charlotte. -- De alguma forma, ele havia
pegado o sabonete e o esfregava nos seios dela. -- Estou ensaboando voc. -- Ele
soltou o sabonete e suas mos comearam a espalhar as bolhas sobre aqueles seios. --
Assim no  melhor? -- murmurou Jake.
      -- Ah, sim -- suspirou Charlie. O corpo estava quente porque Jake a pressionava
nu contra a parede, com as mos administrando um delicioso banho em seu corpo
estremecido. Seus seios pareciam pesados e intumescidos, e os mamilos estavam rijos
de desejo. -- No pare.
      Com uma risada, Jake baixou a cabea e a beijou com voracidade.
      -- No vou parar -- rosnou ele e, com a desculpa de ensaboar esquecida, a
ergueu e colocou as pernas de Charlotte em volta da cintura.
      -- No, vou cair -- gritou ela, segurando a cabea de Jake, passando os braos
em volta do pescoo. Mas ela no caiu, pois aquelas mos fortes seguraram seus
quadris, e com um movimento ligeiro ele a penetrou. Os olhos dela se fecharam e a
cabea pendeu para trs enquanto as pernas se prendiam em volta de seu corpo, que,
estremecido, era tomado de uma onda de excitao.
      Jake gemeu guturalmente. A paixo o tomou, ele se moveu mais rpido e mais
forte e gritou o nome Charlotte ao chegar ao clmax com uma rapidez constrangedora.
O corpo dela estremeceu em xtase  sua volta, sugando-o.
      Ele a colocou de p, segurando-lhe com firmeza a cintura. Ela olhava para ele
com os belos olhos em choque.
      -- Eu no deveria ter feito isso -- murmurou ele.
      -- No chuveiro -- disse Charlie incrdula. -- No sabia que voc conseguia --
acrescentou, surpresa mas feliz.
       -- Aparentemente, com voc qualquer lugar serve -- observou Jake, percebendo
que ela no era to experiente, pois nunca tinha tomado banho com um homem. De
repente, ele pensou com quantos homens ela havia se deitado, quando lembrou do
gemido de dor na primeira vez em que transaram. Uma sensao ruim de ter cometido
um grande erro fez suas mos apertarem involuntariamente a cintura de Charlie. Os
incrveis olhos azuis brilhavam para ele, e ela tinha o corpo mais sensual que j tinha
visto. No, no era possvel. -- Na verdade, vim dizer que o jantar chegou, mas me
distra.
       -- Voc e eu tambm -- brincou Charlie, levantando-se para lhe dar um beijo no
rosto. -- Mas agora saia para eu me secar e me vestir.
      -- J deve ter esfriado -- disse ele, como se falasse com uma estranha. -- Se
quiser esperar, posso pedir outra coisa antes de voc ir embora.
      Ir embora. Seu corao afundou. Mas disse a si mesma para deixar de ser boba.

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Imagine que vergonha se ficasse a noite toda e tivesse de andar no hotel de manh.
Todos saberiam o que ela tinha feito. No, Jake estava sendo cavalheiro. Mas ento
viu seus olhos, que no demonstravam nenhum carinho, nem a paixo que tinham
compartilhado, s uma reserva fria. Ela tremeu.
      -- Isto est bom. -- Apontou o carrinho e pensou por que estava sentindo aquele
arrepio. -- No estou com muita fome.
      -- timo, mas voc precisa comer alguma coisa. -- Ele levantou as tampas e
colocou um ensopado de carne com legumes num prato para ela. Sua boca sorriu, mas
seus olhos no. -- Bom apetite.
      Sentindo-se pior a cada minuto, Charlie comeou a comer, tentando entender
aquele comportamento frio. Talvez ficasse cansado depois de fazer amor, ela tentou
se convencer, mas sem muita convico ao lembrar que ele tinha se comportado da
mesma forma na noite anterior, um olhar distante mascarando sua expresso.
      -- Est muito calado.
      -- Estou comendo -- disse Jake com um ar cnico e uma das sobrancelhas
levantadas, e ela o viu comer o ensopado com aparente satisfao.
       Voltando para o prprio prato, ela engoliu mais algumas garfadas. Mas sentia um
gosto amargo na boca, ento devolveu o prato ao carrinho. Devia ser sua culpa se ele
estava to reservado, mas o que tinha feito de errado? Talvez Jake tivesse percebido
sua tentativa de parecer sofisticada e tivesse se decepcionado com ela na cama. Ele j
devia ter dormido com muitas mulheres.
      -- Quantos anos voc tem? -- disparou ela, arrependendo-se imediatamente
pela pergunta.
      -- Trinta e oito. Devo ter idade para ser seu pai. -- Sua voz mostrou uma ponta
de desdm impossvel de no perceber.
      -- Tenho 26 anos, no sou uma menina.
      Jake virou a cabea, olhou a pequena mo em sua coxa e depois o rosto
sorridente,
      --No acha errado um homem mais velho ter uma amante muito mais nova? --
perguntou ele com uma amargura que a chocou.
      -- No se ele... -- Ela ia dizer a ama, mas parou. -- No se ele realmente a quer e
o sentimento  mtuo -- disse cuidadosamente, sem confiana para sugerir que Jake a
amava. Mas queria convenc-lo de que a idade no importava.
      -- Voc acredita mesmo nisso?
      -- Acredito, claro -- respondeu com firmeza.
      -- Provavelmente porque teve de agentar um pai que teve vrias amantes
jovens. J pensou que outras pessoas podem no concordar? -- perguntou, cnico.


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       -- Na verdade, no. Meu pai era diferente, e eu nunca tive de agentar suas
amantes. S conheci uma. Mas no estamos falando dele, e sim de voc. -- Ela achou
incrvel que um homem maravilhoso como Jake se sentisse vulnervel em relao  sua
idade e isso a fez ter mais carinho por ele.
      -- Estamos? -- indagou Jake com uma expresso de cinismo. -- Se voc est
dizendo.
      A afirmao velada a confundiu.
      -- Por que mais voc mencionaria a diferena de idade?
      Jake deu um sorriso estonteante e colocou o brao nos ombros de Charlie.
      -- Por nenhum motivo, Charlotte, minha cara. Voc est certa, o que so 12 anos
entre amigos? -- Mas ao olhar nos olhos dele, ela teve uma sensao ruim de que ele
no estava dizendo a verdade, e sim apenas acalmando-a. Ento, ele tomou-lhe o
queixo e cobriu os lbios dela.
      Charlie suspirou aliviada com o toque de sua boca e abriu os lbios com desejo,
do qual Jake se aproveitou, tomando seu interior mido com uma experincia que
desmanchava todas as dvidas irracionais sobre ele.
      -- Se eu no a tirar daqui logo -- murmurou ele contra o ouvido dela --, vou
possu-la no sof.




      CAPTULO CINCO


      A cena que Charlie imaginou era muito sensual, e seu corao disparou. Sentiu
um calor pela barriga e seus longos dedos se dobraram e acariciaram a coxa de Jake.
       Com os olhos escuros e deslumbrantes, Jake inspirou profundamente, levantou-
se e disse:
      --  hora de voc ir para casa. Vou chamar um txi para voc -- disse, e se
surpreendeu por tentar suavizar a situao ao acrescentar uma desculpa esfarrapada:
-- Tenho de trabalhar amanh.
      -- Mas amanh  domingo.
      -- E da?
       Seu nervosismo anterior se transformou em humilhao quando percebeu que
tinha se demorado demais e que ele estava mandando-a embora. Levantando-se, evitou
olhar para ele e disse:
      -- Vou pegar minha bolsa e meu sapato no quarto. J deixo voc em paz.
      Quando tentou andar, Jake segurou-a e no deixou que se movesse. Ele

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percebeu a mgoa que ela no conseguia esconder, e sabia no que Charlie estava
pensando.
      -- Jamais vou associ-la  paz, querida, -- Desej-la era sua fraqueza. Ele tinha
todos os motivos para no gostar dela, mas Charlie o excitava como nenhuma outra
mulher, e ele a desejou desde a primeira vez em que a viu. Ele no era louco, embora
estivesse agindo como tal, dividido entre a razo e a qumica. A qumica ganhou e Jake
puxou-a para junto de si. -- O efeito que voc causa em mim  o oposto, e gosto disso.
      -- Gosta mesmo? -- perguntou, com o rubor subindo pelo rosto, enquanto o
corpo respondia ao abrao de Jake avidamente. Estava totalmente confusa. No
entendia por que seu humor oscilava tanto, no entendia os homens.
      Prendendo o riso, Jake respondeu:
      -- Se quer uma confirmao, depois dessas ltimas horas, ento certamente no
alcancei suas expectativas.
      Ao dizer isso, colou sua boca na de Charlie, sem deixar dvidas quanto ao desejo
que sentia.
      -- Isso  uma loucura --- suspirou Jake, olhando-a com olhos confusos. -- Mas
voc me incendeia, no consigo resistir.
      Charlie devia ter ficado lisonjeada com o comentrio, mas havia um
ressentimento naquele olhar sombrio, que funcionou como uma advertncia para ela.
Jake era um homem bonito, viril, mais experiente e sofisticado e achava aquilo uma
loucura. Talvez fosse! Ela se apaixonara por ele, mas o que sabia dele? Apenas que era
um amante fabuloso e que estavam juntos h dois dias, o que alguns, incluindo ela,
achavam rpido demais.
      -- Talvez eu devesse ir embora. J  tarde -- informou ela.
      -- Tem razo, j passa de uma hora. No h por que esperar um txi. Eu a levo
em casa.
      Charlie achou que o havia ofendido, e ficou aliviada ao ouvi-lo dizer:
       -- Obrigado pelo timo dia, e pela noite ainda melhor. D-me seu telefone que
ligo para voc amanh. Algo to bom no deve ser ignorado.
      Ela tirou um carto de visitas e uma caneta da bolsa e escreveu o telefone de
Dave no verso.
       -- Chegamos -- disse Charlie, dando o carto para Jake, que saiu do carro para
abrir a porta para ela.
      -- Venha, Charlotte -- disse, estendendo-lhe a mo.
       Ela olhou para Jake, relutante em deix-lo, sem saber como proceder. Antes de
Jake, ela achava que o amor era um sonho perfeito, e no inclua a insegurana que
sentia.


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      Sentindo seu dilema, Jake segurou o rosto de Charlie entre as mos e a beijou.
Ao se despedir, sentiu-a tremer e sorrir.
      -- Eu telefono -- disse, e se foi.
      Charlie bocejou e se espreguiou. Sentia dor em lugares que no conhecia. Jake.
Murmurou o nome dele e imagens do dia anterior passaram, como um vdeo, por sua
cabea. Deixou escapar um suspiro, profundo.
       Olhou para o relgio. Dez horas! Ela perdera a hora. Talvez Jake j tivesse
ligado. Ela pulou da cama e foi tomar banho. Colocou seu jeans e camiseta branca
preferidos e fez um rabo-de-cavalo. Olhando-se no espelho, percebeu um brilho no
olhar, um rubor de excitao no rosto. Ficou encantada ao ver como fazia diferena
ter um homem em sua vida. Precisava se acostumar com a transformao da jovem
ativa e eficiente para a mulher faminta e sensual. Ainda sorrindo, foi at a cozinha e
apertou um boto da secretria eletrnica. Seu sorriso desapareceu ao ouvir: "No h
mensagens."
      Ligou a cafeteira e, como consolo, lembrou que Jake ia trabalhar. Nas duas
horas seguintes, ela vagou pelo apartamento. Em um momento, se alegrava, certa de
que Jake ligaria, em seguida, entrava em desespero, convencida de que no ligaria.
      Ao meio-dia, percebeu que seu comportamento era ridculo. Ento, pegou a bolsa
e as chaves e saiu, dizendo a si mesma que, se Jake ligasse, deixaria um nmero e ela
poderia ligar de volta.
      Charlie voltou uma hora depois, melanclica e cabisbaixa, segurando as sacolas.
     -- Buon giorno, cara. -- Aquela voz melodiosa era como msica aos seus ouvidos.
Ergueu a cabea. -- Finalmente voc voltou.
       Jake esperava por ela. Ele se aproximou e a encarou, com um pequeno sorriso
nos lbios.
      -- Charlotte.
      Ao ouvi-lo dizer seu nome, o corao de Charlotte disparou e ela corou, pois a
lembrana da noite anterior era muito real. Ele estava ao lado dela; ela podia toc-lo.
      -- Liguei para ver se gostaria de almoar comigo.
      -- Jake, voc est aqui -- disse, finalmente encontrando sua voz. -- Achei que
voc fosse ligar.
      De repente, os olhos que a encaravam estavam escuros e impenetrveis.
      -- Espero que no tenha aparecido em um momento inconveniente.
      -- No. De maneira alguma -- apressou-se a acalm-lo, fitando-o com carinho.
Ela engoliu em seco e continuou. -- Venha. S tenho de colocar o leite na geladeira e
depois sou toda sua.
      -- Voc tem certeza? Se voc est envolvida com outra pessoa, diga agora,

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Charlotte.
       -- Claro que no -- negou ela, sentindo a tenso que havia nele e imaginando qual
seria sua causa. -- Por que voc acha isso?
         -- Talvez porque esteja hospedada no apartamento de outro homem.
         Ela riu, aliviada.
         -- Dave  um velho amigo.
      -- Ento espero que continue assim e que eu seja seu amante exclusivo. No
gosto de dividir, e imagino que voc tambm no. Ou ser que me enganei?


      -- No. Sim. -- Ele a olhava com olhos quase furiosos e Charlie estava
totalmente confusa. -- Quer dizer, claro que no.
      Meu Deus! Jake estava realmente com cimes, apesar de no ter motivo algum.
Ela estava a ponto de dizer isso e explicar que Dave era seu chefe no Resgate
Internacional de Emergncia, mas ele a interrompeu.
      -- Que bom. Terceiro andar, no? -- indagou, abraando-a e levando-a para o
elevador.
     -- Achei que voc tinha de trabalhar hoje. -- Ela no era uma pessoa fcil,
mesmo que tivesse passado essa impresso a Jake.
         -- Certa mulher me deixou acordado e sedento, ento trabalhei pelo resto da
noite.
         -- No conseguiu dormir? Que engraado... Eu dormi como uma pedra.
      As entranhas de Charlie se contorceram ao imaginar Jake sedento por ela.
Charlie ficou nervosa ao lhe mostrar o apartamento. Pegou a sacola e disse:
      -- Fique  vontade enquanto guardo isso. -- E correu para a cozinha antes de
fazer alguma besteira, como agarr-lo. No queria parecer muito desesperada.
      Os olhos de Jake correram todo o apartamento. O lugar era minsculo e era,
obviamente, usado para apenas uma coisa: a cama.
      Na pequena sala, havia um sof de frente para a televiso e para o rdio. Uma
escada levava a uma grande cama e ao banheiro. Debaixo da escada, havia uma mesa,
um computador e uma estante de livros. Isso era tudo.
      Suas piores suspeitas foram confirmadas: era um ninho de amor, ou a casa de
um solteiro, na melhor das hipteses. Odiou o maldito impulso que o havia levado a
procurar Charlotte. Isso no era de seu feitio. Mas depois de uma noite sem dormir,
atormentado por imagens do corpo dela, tendo ficado sentado na frente do
computador sem conseguir trabalhar, Jake foi vencido pela curiosidade e, para ser
honesto, pela libido. Queria v-la novamente. Ledo engano.
         Andando pelo apartamento, ele viu um porta-retrato. Havia um homem louro,
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alto e robusto com uma morena e trs crianas. Certamente o ltimo amante de
Charlotte no podia ser casado.
      --  Dave com a famlia. -- Ele virou a cabea ao ouvi-la. Estava parada na porta
da cozinha, sorrindo para ele.
      Jake continuou parado, sentindo-se incmodo. Olhou para Charlotte. Ela parecia
totalmente franca, quase inocente, e, ainda assim, usava o apartamento de outro
homem. Um homem casado.
      -- Muito simptico. O apartamento  bem aconchegante.
      -- Dave mora em Dorset e s usa este apartamento quando est em Londres a
negcios.
      -- Conveniente -- acusou cinicamente. -- Para voc. Voc conhece a famlia
toda? -- perguntou Jake, diminuindo as suspeitas sobre Dave.
      -- Conheo h muitos anos. Foram hspedes freqentes do hotel por vinte anos
ou mais. Essa foto  antiga, de quando as crianas eram pequenas. Lisa era muito amiga
da minha me e, depois que ela morreu, Lisa e Dave foram timos comigo, como tios de
considerao.
       Jake se inclinou em direo a ela, puxou-a para si e juntou seus lbios aos dela,
em um beijo que inflamou todos os seus sentidos. Ela passava os dedos no cabelo
escuro de Jake, enquanto ele explorava sua boca com a lngua. Ele deixou os lbios de
Charlie e passou a lngua por sua orelha. Seus dedos tentavam abrir os botes de sua
blusa. Charlie havia se vestido com pressa e estava sem suti. A mo de Jake se
aproveitou disso, afastando o tecido e apalpando seu seio nu. O corpo de Charlie
estremeceu de prazer, deixando escapar um gemido.
      -- No -- declarou Jake. Ele via o desejo atravs dos olhos azuis de Charlie, mas
se forou a ignorar isso, fechou a blusa dela e a abraou. Ela merecia mais que sexo
rpido. -- Aqui no, querida. Vim lev-la para almoar.
      -- No estou com tanta fome.
      -- Eu estou e o restaurante do hotel serve uma comida deliciosa. -- Ele a
afastou, fitando seu rosto adorvel e demorando-se em seus lbios. Sua boa inteno
desmoronou. -- E tem um excelente servio de quarto.
      -- De repente, fiquei faminta. Adoraria almoar com voc.
      A sinceridade do sorriso de Charlie e a sensualidade de seus olhos fizeram com
que Jake se antecipasse:
      -- Nesse caso, como disse que estava de frias, por que no faz as malas e vem
aproveitar o conforto de um hotel de primeira linha e a mim pelas prximas semanas,
em vez de ficar nesse apartamento apertado?
      -- Ficar com voc? -- Ela queria, mas tinha de hesitar. -- Mas mal nos
conhecemos, faz apenas dois dias.

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      -- Melhor ainda. Assim voc ter tempo para me conhecer. E no se preocupe,
posso dizer que sou um homem bem financeiramente, limpo e totalmente
independente.  um apartamento com dois quartos e, se voc preferir, podemos
dormir separados.
       -- No sei. -- Uma voz advertia que Jake no estava oferecendo felicidade
eterna. Ele disse que nunca se casaria, mas seus sentimentos por ele superaram seu
lado racional.
      Ela olhou para ele com um pequeno sorriso e disse gentilmente:
      -- Seu hotel parece ser muito, divertido, Jake. Vou fazer as malas.
      Dez minutos depois, Charlie desceu carregando uma mala. Com uma das mos,
Jake pegou a mala e com a outra guiou Charlie para fora do apartamento.
      Ao entrar no hotel com Jake, Charlie experimentou uma sensao de pnico. Ela
olhou em volta. Os hspedes estavam vestidos elegantemente, e ela se deu conta de
sua simplicidade. Por que no tinha se trocado? Ou pelo menos ajeitado o cabelo, sem
aquele rabo-de-cavalo infantil? Olhou para Jake. Ele tinha tudo: um corpo incrvel, uma
aparncia formidvel, exalava sensualidade e usava roupas casuais com uma elegncia
que poucos homens tm.
      Percebendo sua inquietao, Jake segurou-a.
      -- Est reconsiderando sua opo?
      -- No, mas estou horrvel comparada s outras pessoas. Eu me destaco.
      Um sorriso cruzou os lbios de Jake.
      -- Voc se destaca porque  a mulher mais bonita. Mas se voc no est 
vontade, h uma soluo simples.
      Antes que Charlie percebesse suas intenes, ele a levou a uma loja.
      -- Esta  a srta. Summerville -- informou  vendedora. -- Providencie tudo de
que ela precisar. -- Ele tirou um carto de crdito diamante do bolso e colocou-o no
balco antes de olhar para Charlie com um sorriso quase cnico. -- Problema resolvido.
Mas no demore, pois estou com fome.
      -- No, obrigada -- respondeu Charlie por entre os dentes. Se estivessem
sozinhos, teria batido nele. Nunca se sentiu to humilhada em toda a sua vida.
Apressadamente, saiu da loja.
       -- Fico grato por ter se apressado para ficar a ss comigo, mas no precisava
ter sido rude com aquela moa encantadora -- disse, zombando, enquanto entravam no
elevador.
      Assim que a porta se fechou, Charlie se afastou dele.
      -- Ficar a ss? Voc est louco? Sa da loja porque nunca fui to humilhada.
Posso muito bem comprar minhas roupas e pagar minhas contas.

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      -- Pagar a conta? Esquea! Voc  minha convidada. E por que se sentiu
humilhada, querida? As mulheres esperam que os homens comprem presentes e
paguem a conta. No h por que se sentir humilhada.
      Charlie o encarava, incrdula.
     -- Ento voc deve ter se deitado com mulheres terrveis para acreditar nessa
bobagem.
       -- Nenhuma to sincera quanto voc -- retrucou ele, com o rosto dominado pela
raiva. -- Agora vai me dizer que nunca passou as frias com um homem e deixou que
ele pagasse as contas.
      -- No, nunca -- respondeu ela, calmamente. --  a primeira vez para mim.
      Jake a abraou e murmurou palavras em italiano em seu ouvido. A porta do
elevador se abriu e ele a levou em direo ao quarto.
      -- Voc  uma mulher incrvel. Sempre me surpreende -- revelou e capturou a
boca de Charlie em um beijo apaixonado.
      Com uma das mos apoiada no peito de Jake, ela sentia seu corao bater.
Aqueles braos a envolviam, e ela sentia seus corpos se misturando. Charlie
estremeceu ao sentir os beijos em seu rosto, descendo pelo pescoo.
      -- Dio, como quero voc -- sussurrou Jake ao ouvido de Charlie e, erguendo-a
em seus braos, entraram no quarto.
      Passaram o resto do dia e a noite toda na cama. Ao despertar na manh de
segunda-feira, Charlie era outra mulher. Ela observava Jake, que saa do banho com
uma toalha amarrada na cintura. Ele tinha um corpo magnfico, a pele dourada e os
msculos fortes. Depois da noite anterior, Charlie no tinha mais vergonha de olhar.
Fitava-o pegando um terno cinza, uma blusa branca, e sorriu ao pensar na intimidade
de v-lo se vestir.
      -- Vai sair? Essa no  uma roupa de passeio. Sorrindo, foi se sentar na cama ao
lado de Charlie.
      -- Tenho uma reunio pela manh. -- Ele sorriu ao ver a expresso manhosa de
Charlie e passou a mo em seu cabelo. -- E no, no vou beij-la, seno nunca chegarei
 reunio. -- Olhando profundamente para ela, acrescentou: -- Depois das ltimas
dezoito horas, talvez voc queira descansar, ou conhecer a cidade. Mas quero que
esteja de volta s seis. Estarei esperando. -- Ele a beijou na ponta do nariz e terminou
de se vestir. Em seguida, virou-se para fit-la. -- Voc est quieta demais, Charlotte.
      -- Estava apenas pensando se devo desfazer a mala no outro quarto.
      Ela estava feliz demais para ficar zangada e ele havia avisado que tinha
obrigaes profissionais. Mas ela no ia deix-lo escapar ileso.
      -- Talvez eu tenha mentido. O segundo quarto foi transformado em um
escritrio durante minha estadia. Ento, a menos que queira dormir na escrivaninha...--

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sugeriu.
        Charlie atirou um travesseiro em cima dele.
        -- Que absurdo -- gritou, e comeou a rir da expresso espantada no rosto de
Jake.
      -- Voc me paga por essa mais tarde. Prometo! Ento, fique com medo. -- Ele
lanou um sorriso ofuscante que a deixou sem flego.
      Charlie no foi passear. Foi s compras, e gastou tudo, pois queria ficar bonita
para Jake. Quando chegou, um pouco depois das seis, ele j estava esperando.
      -- Tpica atitude feminina: atrasada e no resistiu s compras -- disse ao v-la
carregando vrias sacolas.
        -- Mas no da loja carssima do hotel, e eu que paguei.
      Sem dizer uma s palavra, mos fortes comprimiram-na contra um vigoroso
corpo masculino e ela recebeu um beijo ardente. As sacolas caram no cho quando ela
passou seus braos pelo pescoo de Jake. Algumas horas depois, pediram servio de
quarto. E assim foram os dias seguintes. O trabalho no deixava Jake acompanh-la
durante o dia em seus passeios por Londres, mas ela no se importava, pois sabia que o
encontraria mais tarde. As noites eram a melhor parte. Ele apenas olhava para ela e
todo o seu corpo se excitava.




        CAPTULO SEIS


      A sexta-feira anunciava um belo dia a caminho. Charlie admirava Jake, do outro
lado da mesa. Poderia admir-lo para sempre. Ele tinha acabado de terminar o caf-
da-manh e enchia a xcara de caf.
      -- Voc bebe muito caf, Jake -- declarou ela com os olhos cintilantes. -- E
trabalha demais tambm. Quando no est numa reunio, est ao telefone ou no
computador. Precisa relaxar mais. Passe um dia comigo?
      -- Querida, se eu relaxasse mais um dia com voc, correria o risco de sofrer um
infarto -- zombou, deslizando o olhar pelo leve intumescimento dos seios marcados no
roupo.
      -- No me referi a isso. Para sua informao, vou ao Kew Gardens passear e me
imaginar numa ilha tropical.
       -- Isso eu posso at visualizar: voc em uma ilha paradisaca vestindo apenas
uma saia de folhas. Que tal fazer isso de verdade quando eu tiver tempo? Mas
infelizmente hoje tenho de administrar uma empresa enorme e h milhares de pessoas
que dependem de mim para sobreviver. -- Olhou para Charlotte. -- Antes de conhecer

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voc, passei trs meses confinado em casa l na Itlia, pois meus pais estavam
doentes.
      Esta viagem a Londres  a primeira de vrias sucessivas que terei de fazer. Se
pareci preocupado, era por isso. Mas tudo isso vai mudar. Temos entradas para uma
pea hoje  noite que comea s 19h30. E amanh estou inteiramente  sua disposio.
Pode me levar aonde quiser. S tenho de fazer o check-out pela manh.
     As informaes sobre os pais, o trabalho e as dificuldades de Jake nos ltimos
meses deixaram Charlie satisfeita. Ele comeava a confiar nela.
         -- Cuidado para no me mimar demais. -- E o abraou pelos quadris.
     -- E cuidado como abraa um homem. Voc pode insinuar algo errado. -- disse,
zombando e retirando-lhe as mos dos quadris.
      Estava atrasada. J eram quase 19 horas. Saiu correndo do elevador e abriu a
porta da sute.
         -- Onde estava? S temos meia hora. -- Jake vestia um terno escuro e parecia
bravo.
         -- Eu sei. Mas o metr estava lotado e acabei me atrasando.
      -- Metr? Voc pegou metr? O metr  muito perigoso para uma mulher andar
sozinha. Voc est louca? -- indagou Jake, em tom desafiador.
         -- Jake,  seguro. Peguei o metr a semana toda.
      -- A semana toda? Charlotte, voc vai ter um carro  disposio de agora em
diante. Eu no quero ver voc correr nenhum tipo de risco.
         -- No pensei que se importasse tanto com isso.
      -- Cuido das pessoas sob minha responsabilidade. Anda, arrume-se logo. Vamos
nos atrasar.
         Abrindo a mochila, Charlie pegou uma caixa.
      -- Aqui,  para voc. Comprei em uma loja no Kew Gardens. Quando vi, me
lembrei de voc. -- Ela ps o presente nas mos de Jake e percebeu sua surpresa.
       Ele abriu a caixa lentamente, retirou um globo de vidro e viu a beleza extica da
flor que continha. Ficou comovido.
      Aps um banho rpido, Charlie voltou para o quarto e ps o vestido que havia
comprado na segunda-feira. Na loja parecia glamouroso, era rosa claro e tinha um
corpete e uma saia curtinha, mas agora lhe pareceu ousado demais. Vestiu-o assim
mesmo.
      O presente de Jake era um peso de papel com uma orqudea negra petrificada
no meio. Charlotte lembrou-se de Jake porque ele era belo como a orqudea e, depois
de tudo o que passou, concentrou-se em construir um imprio de negcios e escondeu
seus sentimentos em uma camada protetora.

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      Charlie levantou-se, penteou os cabelos. No tinha mais tempo. Pegou o xale, a
bolsa e saiu. Jake estava plantado no meio da sala, examinando o presente com olhos
brilhantes que mais pareciam lgrimas.
      -- Voc gostou? -- ela sorriu e Jake teve uma reao peculiar.
     Depositou o peso de papel sobre a mesa e se dirigiu a ela. Ps-lhe as mos nos
ombros e disse emocionado:
      -- Obrigado, Charlotte. Vou guardar este presente para sempre. -- Puxou-a
contra si e baixou a cabea ao encontro da dela.
      Esse beijo foi muito diferente dos outros. Foi suave e terno. Jake a soltou e
suspirou.
      -- Prometi levar voc ao teatro. Vamos nos atrasar. Voc est absolutamente
deslumbrante. No vou tirar os olhos de voc.
      Chegaram tarde demais para o primeiro ato, mas conseguiram entrar no
segundo. No intervalo, pediram uma taa de champanhe. Jake a fitou com um olhar
enigmtico.
      -- Ento, o que est achando?
     -- Sinceramente? -- Ela curvou a sobrancelha, elegante. -- No teria feito a
menor diferena se tivssemos assistido ao primeiro ato. A pea  incompreensvel.
      Jake jogou a cabea para trs e riu alto.
      -- Sinceridade absoluta. Vamos embora daqui, comer em algum lugar.
      No dia seguinte, Charlie deixou Jake dormir mais. Tomou um banho e se vestiu.
Ela pediu servio de quarto e levou o carrinho para dentro.
      Esparramado sobre a cama, coberto apenas pelo lenol at a cintura, Jake era
uma viso tentadora.
      -- Voc vai me servir o caf ainda hoje?
      -- Est acordado. Achei que gostaria de tomar o caf na cama.
      -- S se voc me acompanhar -- convidou-a preguioso.
      -- De jeito nenhum. Por mais que o ame, voc prometeu sair comigo hoje. Estou
esperando.
      Os olhos de Jake escureceram e ela percebeu o que tinha acabado de dizer,
mas no quis sentir-se constrangida. Era a verdade e Jake poderia aceitar, ignorar ou
mand-la embora. No esconderia mais seus sentimentos.
       -- Ento me sirva o caf e serei seu na mesma hora. --  claro que fingiu no
ouvir a declarao, mas ao menos no a mandou embora.
      Duas horas depois, Charlie estava na varanda de uma cobertura s margens do
rio Tamisa, absorvendo a deslumbrante paisagem da cidade ao redor. Era uma mulher

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do campo, mas certamente se adaptaria quilo.
      -- Pretende mesmo comprar este apartamento?
      -- Estava pensando em comprar o edifcio inteiro.  um excelente investimento
de longo prazo. Mas ele est vago e pode ser usado como uma base permanente em
Londres. O que acha?
      -- Eu adorei. -- Sentiu-se lisonjeada por ele pedir sua opinio.
     -- Mas do ponto de vista de uma mulher, voc prefere passar um tempo com um
homem aqui? -- Seus olhos cintilaram ao v-la corar. -- Ou num hotel?
      -- Se for com o homem que amo, no faz diferena.
      -- Tpica resposta romntica. Voc deve saber muito pouco sobre seu prprio
sexo. Acredite em mim, a maioria das mulheres iriam embora se o homem no lhe
proporcionar tudo a que esto acostumadas.
      -- Isso  uma generalizao radical. Eu no acredito nisso.
       -- Diga isso  minha ex-noiva. Fugiu como um raio quando descobriu que no sou
to rico quanto pensava.
      -- Isso deve ter magoado voc.
      -- No, nem um pouco. Por que diabos comeamos este assunto? O que h em
voc que me faz dizer coisas que no quero dizer?
      -- Meu charme fatal -- respondeu ela, ousada. Havia conhecido Jake melhor nos
ltimos dias e comeou a entender por que parecia to insensvel e controlado.
      -- Voc deve estar certa. -- E Jake sussurrou-lhe no ouvido: -- Pode provar
para mim depois. -- Ele tirou a mo de sua bochecha e colocou-a no quadril de Charlie.
-- A verdade  que j fechei esse negcio aqui ontem. Agora sou seu para o resto do
dia.
       Passaram o dia no zoolgico. Charlie, de braos dados a Jake, sentiu pela
primeira vez que eram um casal normal. Riram dos macacos e ela se assustou com as
cobras. Comeram sanduches na lanchonete do zoolgico e Jake comprou um panda de
pelcia que havia encantado Charlie. Jantaram em um pub  beira do rio e discutiram
sobre os mritos da cozinha italiana e da inglesa no caminho de volta para o hotel. Ao
dar o brao a torcer e admitir que a cozinha italiana era melhor, ergueu os braos e
Jake aproveitou para agarr-la.
      Exaustos, esparramaram-se pela cama. O telefone tocou ao lado da cama e
Charlie observou Jake retirar o fone do gancho e falar em italiano. Viu seu corpo ficar
tenso e o tom de voz se alterar.
      Jake pulou da cama e olhou para ela:
       -- Era do meu escritrio. Tenho de ir paia a Itlia imediatamente. -- E ele
dirigiu-se ao banheiro.

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      Perplexa, Charlotte olhou Jake entrar no banheiro. Ela o amava e ele partiria.
Mais cedo ou mais tarde aquilo ia acontecer, mas ela tentou esconder a realidade.
Agora no tinha opo. O que ela esperava? Afinal de contas, ele administrava uma
empresa gigantesca, e ela tinha de voltar para o hotel no domingo.
      Jake voltou do banheiro e comeou a se vestir da maneira eficiente com a qual
fazia tudo. Charlie levantou-se da cama e se dirigiu ao banheiro. Quando voltou do
banho, Jake folheava concentrado alguns documentos de uma pasta. J tinha feito as
malas e vestia um terno escuro.
      Ela deve ter feito algum barulho, porque ele ergueu a cabea assim que
Charlotte se dirigiu a ele.
       -- Voc j fez as malas.
      -- J. Desculpe ter de ir embora to rpido, mas minha presena foi requisitada
na Itlia,
       -- Eu sei, mas  uma pena perdermos nosso ltimo dia juntos.
       -- Mas ainda vamos no ver. Ligo hoje  noite. Fique aqui e aproveite seu ltimo
dia.
       -- No, no me sentiria  vontade aqui sem voc. Vou para casa.
      Jake fez algo que jamais havia feito antes: escreveu o nmero de seu telefone
no verso de seu carto de visitas.
       -- Este  meu nmero em Gnova. Se precisar, me ligue. Agora preciso ir. O
avio est me esperando.
       Charlie viu-o fechar a pasta, segurando as lgrimas.
       -- J? -- A voz embargada a denunciava.
      -- Infelizmente sim. -- Jake deu um breve beijo nos lbios trmulos de Charlie
e partiu.
      O Sr. Jones sempre foi o mdico de Charlie. Costumava jantar no restaurante
do hotel com regularidade e, muitas vezes, Charlie o acompanhava. Ele era mais amigo
que mdico. Mas agora o encarava incrdula.
       -- Voc tem certeza? -- perguntou pela terceira vez.
       -- Absoluta, querida Charlie. J est quase na stima semana de gravidez.
       -- Mas usamos preservativo -- murmurou, sacudindo a cabea sem acreditar.
      -- No o suficiente. Mas no  o fim do mundo. Voc est grvida e no doente.
Voc  uma mulher jovem e saudvel, Charlie, voc ter um beb lindo e sadio. Voc
no tem nada com que se preocupar. Volte para casa e conte ao pai.
      "Fcil de falar, difcil de fazer", pensou Charlie, com olhos fixos sobre a pilha
de documentos sobre sua mesa.


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      -- No  bom sonhar acordada, Charlie.
      Ao ouvir a voz de seu gerente Jeff, ela ergueu a cabea.
      -- No estou sonhando, estou tentando trabalhar. Jeff a fitou com olhar
misericordioso.
       -- Deveria contar ao pai. Ele tem o direito de saber. No  de seu feitio
negligenciar responsabilidades.
      Jeff conhecia Charlie desde os doze anos de idade, quando foi contratado por
seu av para gerenciar o hotel.
      -- Esse filho  de minha responsabilidade. Eu gostaria de saber: como todos os
funcionrios ficaram sabendo da gravidez no mesmo dia em que foi confirmada? --
perguntou ela, passando a mo nos cabelos louros.
       -- Talvez porque tenha voltado das frias resplandecente como uma mulher
apaixonada, mencionou o nome de Jake d'Amato uma ou duas vezes e comprou um livro
Aprenda italiano. Quando comeou a passar mal todos os dias, ficou bvio. Alm do
mais, todos , sabiam que tinha consulta marcada com seu mdico. Todos se preocupam
com voc. E muitos j suspeitavam dessa gravidez antes de voc.
      -- Muito obrigada. No s todos sabem que estou grvida, como ainda me acham
uma idiota por no ter percebido os sinais. O que vou fazer?
      -- J disse. Telefone para ele, telefone agora. Preciso voltar para minha mesa --
aconselhou, saindo pela porta.
       O problema era que ela j tinha tentado falar com ele trs vezes desde que a
gravidez se confirmou, mas s conseguiu falar com uma tal de Marta, cujo ingls era
to ruim quanto o italiano de Charlie.
      Nas cinco semanas seguintes  ltima vez que viu Jake, a crena de que ele a
amava igualmente comeou a se dissipar. Ele telefonou para saber se ela tinha chegado
bem. Uma semana depois ligou para avisar que ia viajar e entraria em contato quando
voltasse. Desde ento, no soube mais dele.
       Mas ontem, folheando uma revista, viu uma foto de duas pginas sobre um
jantar beneficente em Nova York em que Jake d'Amato aparecia com uma
estonteante morena ao lado. Segundo a matria, a moa era Melissa, uma "amiga" de
longa data de Jake.
      Charlie no quis mais ligar para Jake. Tinha de encarar a verdade, ela fora
enganada. Embora tivesse se apaixonado por ele, para Jake ela no passava de mais
uma distrao.
       Deveria ter imaginado que um homem como Jake era sofisticado demais para se
sentir atrado por uma virgem ingnua.
      Com raiva, esfregou os olhos, passou a mo nos cabelos e se levantou. Num
impulso, pegou o telefone e digitou os nmeros. Ouviu o 'Pronto' e no se preocupou se

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Marta entenderia uma a cada dez palavras que dissesse. Charlie desembucharia.
       -- Diga ao canalha do seu chefe que estou grvida e que ele ser pai. Charlotte
incinta, Jake papa, capisco! -- acrescentou, irnica, sem se preocupar com a gramtica,
e desligou o telefone.
      Charlie no se importava se Marta havia entendido a mensagem ou no. Sentiu-
se bem melhor depois. E agora poderia contar a Jeff que tomou a atitude certa e
contou a verdade ao pai da criana.
      -- Posso cobrir o turno da Amy, Jeff-- ofereceu, aproximando-se do balco da
recepo. O hotel estava com reserva cheia para o vero e os funcionrios estavam
assoberbados. Charlie sempre ajudava quando necessrio.
       -- No, tudo bem. Por que no tira o dia de folga? Faz semanas que no sai. Est
sol e Dave e os filhos vo velejar. Voc vai se sentir melhor.
      Havia andado pelo hotel noite e dia esperando um telefonema de Jake. No
faria mais isso. Agora tinha um outro ser humano com que se preocupar.
      -- Como sempre, voc tem razo, Jeff. Tenho agido como uma idiota.
       -- Voc, idiota? Jamais. -- A voz soou por detrs do ombro de Charlotte. Ela
virou-se e sorriu para a grande homem grisalho que zombava dela. Dave saa do
restaurante com seus filhos.
      Passar o dia velejando parecia bem mais interessante que se entediar no hotel
por mais um. minuto.
      -- Vou me trocar e encontro com vocs no per em vinte minutos.
      Estendida sobre uma toalha no deque do barco, Charlie sentia-se
surpreendentemente feliz. Eles haviam velejado para o sul do lago e ancoraram para
fazer um piquenique. Os trs adolescentes estavam famintos e Charlie no perdia para
eles.
      -- Muito esperta. -- Dave sentou-se a seu lado. -- Tem de ter cuidado no seu
estado.
        Dave freqentava o hotel desde que ela era pequenina. E Charlie sabia como a
morte de Lisa, sua esposa, em decorrncia de um cncer de mama arrasou Dave e os
filhos.
      -- Obrigada -- murmurou.
      -- Eu me sinto responsvel por sua situao. Se eu nunca tivesse sugerido uma
mudana de vida e oferecido meu apartamento, no teria conhecido o homem
descuidado que a engravidou. Mas o principal : vocs se amam?
      No havia como negar a verdade. Dave a conhecia bem demais para no
reconhecer uma mentira.
      -- Eu amo o Jake, mas tenho dvidas se ele me ama.

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      A conversa foi interrompida pela baguna das crianas e para alvio de
Charlotte. J eram quase seis horas quando chegaram ao destino final. As crianas
apostaram corrida e Charlie foi atrs. O dia no lago tinha feito muito bem a ela, mas
estava sem flego e parou. Contemplou o paredo de rocha cinza ao redor brilhando
com o sol e o jardim com o lago atrs dela. Jamais havia visto aquela paisagem de
forma to bela.
      Ps a mo sobre a barriga ainda lisa.
      -- O que quer que acontea, ns dois sempre teremos um lar aqui.
       Saber se Jake a amava no era mais sua prioridade. Sua prioridade agora era
seu filho.
      O hotel Lakeview era um prdio antigo muito bonito, num cenrio magnfico,
nada do que Jake imaginava. Deveria ter mais de cem anos. A decorao era vitoriana
e Jake pensou se o lugar tinha sido modificado alguma vez desde sua construo,
enquanto esperava na recepo. Havia poucos quartos e devia ser difcil lucrar. Devia
ser por isso que Charlotte queria tanto contata-lo.
      Nas duas semanas que passaram juntos, chegou a acreditar que ela no era a
mulher gananciosa e egosta que pensava. Mas agora se deu conta de que era mais
esperta que as outras. Procurava o pote de ouro, uma penso para a vida inteira.
      Um homem alto e magro finalmente apareceu.
      -- Em que posso ajudar, senhor?
      -- Gostaria de falar com a dona, Charlotte Summerville.
      -- Seu nome, por favor?
      -- Jake d'Amato. Ela sabe quem sou.
      -- Ela foi velejar, senhor. Deve chegar por volta das seis. Se no se importa em
esperar.
      No adiantava discutir. Acomodou-se no saguo, mas sentiu estranhos olhares
dos funcionrios em sua direo. Levantou-se e saiu para o jardim. Onde diabos estava
Charlotte? Em seguida a avistou.
      Estava linda. Os cabelos louros brilhavam sob o sol e as graciosas pernas
corriam para ele. Sorriu de satisfao. Ela ainda o amava. Esqueceu-se de sua fria.
Depois de cinco semanas sem v-la, sentiu uma excitao tomando-lhe o corpo. E ficou
esttico.
       No segundo seguinte percebeu que ela no corria em sua direo, nem o tinha
visto, e no estava sozinha. De onde estava, viu Charlotte rir de felicidade para um
homem mais velho que parou ao seu lado e a envolveu com os braos.
      Homem algum jamais tocou em sua mulher e jamais tocaria. Enfurecido, desceu
do terrao e se dirigiu at ela.


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      Charlie contava a Dave sobre seu passeio no Kew Gardens, quando ele a
interrompeu e soltou sua cintura.
      -- Um homem enorme, moreno e muito irritado acabou de sair do terrao e vem
em nossa direo.
       Charlie olhou para a frente. Jake! Era Jake em carne e osso. Uma onda de
excitao invadiu seu corpo, seguida de uma sensao de medo. Conseguia ver o dio, a
fria em que se encontrava.
      -- Charlotte. Finalmente, -- Ele lhe lanou um olhar negro enquanto se
aproximava. Envolveu-a nos braos e apertou-a contra seu peito largo. -- Vim a seu
chamado, querida. -- O forte sotaque ecoou em seus ouvidos e ela petrificou. E voltou
a sentir um tremor familiar percorrer-lhe as veias enquanto seus lbios foram
tomados em um beijo apaixonado que lhe tirou o flego e enfraqueceu os joelhos.
      -- Voc sentiu minha falta?
      Charlie concordou com a cabea. Jake estava ali e ainda a desejava.
      -- Bom, talvez fosse bom voc me apresentar a seu acompanhante -- disse,
reconhecendo o homem da foto.
      -- Acompanhante? -- Charlie nem conseguia raciocinar. Quando viu que Jake
olhava frio por cima de sua cabea, lembrou que Dave estava ali. Jake a ps de lado e
estendeu a mo para Dave, num gesto possessivo que deixava claro que Charlie era sua.
      -- Jake d'Amato. E voc?
      Calmo e sereno Dave retribuiu o gesto.
      -- Dave Watts. Um velho amigo da famlia e um tipo de pai de considerao de
Charlie desde que os pais dela morreram.
      Charlie virou-se para ele e viu os olhos de Jake cravejarem Dave e percebeu que
este reagia intensamente. Pareciam duas feras se estudando antes de travarem um
combate de morte.
       -- Est aprovado -- disse Dave, dando uma gargalhada e um tapinha nas costas
de Jake, como se fossem amigos ntimos. -- Mas se mago-la, vai se ver comigo. Agora
vou atrs dos meninos antes que destruam alguma coisa. At mais tarde, Charlie -- e
partiu.
      No pretendia provocar aquela cena na frente de Dave, mas agora no precisava
mais ser cerimoniosa.
      -- Seu canalha, me solta! -- contorceu-se querendo se livrar dos braos de Jake.
       -- Est bem. -- Jake a virou para encar-la. -- Mas antes, responda-me uma
coisa, onde est a esposa de Dave? Ele me parece superprotetor demais para um
homem feliz e casado.
      -- Lisa faleceu no ano passado. E antes que voc insinue que ele  meu amante,

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nem todos os homens tm a moral de um rato de esgoto.
      -- Est querendo dizer que eu tenho? -- retrucou Jake. Era astuto ao julgar o
carter e conhecia muito bem sua espcie. Os braos ao redor da cintura de Charlie
no foram paternais, e se ela desse uma chance, ele se aproveitaria. Mas o recado, que
Marta lhe havia deixado hoje pela manh ainda fervilhava.
      -- Se a carapua servir.
      O silncio se prolongou, e a tenso tambm. Mordendo os lbios, ela dominou sua
clera.
      -- O que voc veio fazer aqui, Jake, alm de insultar meu amigo?
      Jake a examinou com ateno. Os olhos brilhando sob os clios negros.
      -- No quero brigar com voc por causa do seu amigo.
      -- Espero que no. -- A foto da revista no saa de sua cabea. Jake era uma
cobra. -- E a, se divertiu em Nova York? Ouvi falar que voc se encontrou com sua
amiga Melissa -- declarou rspida, enquanto via Jake arquear as sobrancelhas.
      -- Voc viu a matria na revista -- disse com um ar presunoso que fez Charlie
se segurar para no soc-lo.
      -- O jantar foi bom? Ou o sorriso no seu rosto se devia ao que viria depois?
      -- Muito bom. E foi por uma boa causa. -- Charlotte estava com cimes. --
Melissa  uma amiga e sim, antes que voc pergunte, fomos amantes, mas foi antes de
eu conhecer voc. Ela me deixou por outro homem rico que, por acaso, estava com ela
no jantar, e no eu.
      -- Ela deixou voc! -- exclamou ela. Furiosa com o homem que dificilmente seria
largado por alguma mulher.
      -- No foi nada demais. Foi uma deciso dos dois. Mas chega de falar do meu
passado.  sobre o presente que vim falar, mas de preferncia no em pblico. A no
ser que voc queira que o hotel inteiro saiba que est grvida. Voc no hesitou em
contar para minha governanta antes de contar para mim. Foi por isso que voc ligou,
no foi?
      As faces de Charlie flamejaram. Jake sabia de sua gravidez. Se ele descobrisse
que foi o ltimo a saber, no ia gostar muito.
      -- ... foi. Venha comigo para minha casa nos fundos.  ali, na ala oeste.
      Charlie ficou aliviada por terem chegado  sua casa sem encontrar ningum.
      -- Quer beber alguma coisa? Ch, caf ou algo mais forte? -- ofereceu.
      Jake estava parado no meio da sala, alto e ameaador.
       -- No, obrigado. Estou cheio do seu ch ingls. -- E pelo seu olhar, estava cheio
dela tambm.


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       Charlie no sabia o que fazer. O choque e prazer inicial se transformaram em
raiva e, por fim, em vergonha. Ela no devia ter telefonado.
      -- Voc deve ter recebido minha mensagem -- disse, sentindo seu corao
disparado.
      -- Recebi. E interessante, Charlotte, como seu conhecimento de italiano
progrediu para dizer  minha governanta que voc est grvida. No gosto disso. Nem
de incomodar meu piloto em um domingo e viajar pela Europa para descobrir a
verdade.
      Ela nunca o viu to furioso, intimidador.
       -- Voc podia ter me ligado -- murmurou Charlie, enquanto ele continuava a fit-
la e ela desviava o olhar.
        -- No, no podia. No seria suficiente. Quero estar olhando nos seus olhos
quando me disser que serei pai. -- Ele segurou o rosto dela, forando-a a olhar para
ele. -- Voc est grvida, Charlotte?
      -- Estou.
      Ela estava animada com essa perspectiva, e tambm assustada. Queria que Jake
a tomasse nos braos e dissesse que ficaria tudo bem. Mas duvidava que isso
acontecesse.
      -- Quando voc engravidou?
      -- H sete semanas. -- Ela ainda no tinha superado o choque de ter
engravidado na primeira ou segunda vez em que tinham feito amor. -- Que azar, no?
      Ela no percebeu que disse isso em voz alta at que a mo de Jake soltou seu
rosto e ele a fitou com um olhar maligno.
     -- Azar? Talvez para mim, mas muito conveniente para voc. Incrvel, mas 
exatamente o tempo que nos conhecemos.
      Jake estava enlouquecido. Era to bvio: ela o havia responsabilizado por ser o
pai. Seus olhos a avaliavam. O short branco e curto aderia a sua pele e ainda no
apresentava barriga, mas talvez os seios estivessem um pouco maiores... No! Ele no
queria pensar nisso. Sim, queria. Mas no tinha nenhuma inteno de se iludir.
      -- Ainda no  cedo para confirmar a gravidez? A menos que a mulher em
questo esteja ansiosa para engravidar.
     -- No se voc ficar enjoada todos os dias, por trs semanas. Voc no acredita
em mim -- disse lentamente, sem jamais ter pensado nisso antes.
      -- No disse isso.
      -- No foi necessrio. -- Ela via a raiva contida em cada linha do seu corpo, em
cada palavra que proferia. O Jake que amava, que achava que conhecia, no era esse
homem furioso, opressor.

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     -- E tenho culpa? Voc no seria a primeira mulher que tenta enganar um
empresrio rico. Quero uma prova.
      Rico... Prova... Estava fraca para sentir raiva, mas esse homem arrogante
conseguiu. Jake chegou sem avisar, insultou a ela e a seu amigo, e teve a coragem de
sugerir que ela estava mentindo e s queria seu dinheiro.
       -- Voc dorme comigo por quinze dias, me enrola com duas ligaes, me ignora
por um ms e depois chega, enfurecido, fazendo cobranas, aterrorizado que eu lhe
custe dinheiro -- declarou com tanto desprezo que ele teve de controlar a raiva. --
Pedindo provas de que eu esteja grvida. -- Ela o empurrou, mas Jake deixou passar..--
Qual  a sua sugesto? -- perguntou, histrica. -- Quer que eu corte minha barriga? 
isso que voc quer? Um fim conveniente? Isso  barato o bastante para voc?
      -- No. Dio, no. No diga isso, Charlotte -- advertiu, segurando-a pelos ombros.
      Chocada pela reao, ela completou:
      -- No se preocupe, tenho toda a inteno de ficar com meu filho. E me solte,
voc est me machucando.
      -- No percebi -- disse, segurando-a de leve, sem solt-la.
      -- Que desastre -- murmurou Charlie.
      Seus hormnios estavam mudando e o tumulto emocional das ltimas semanas
finalmente a atingiu. E descobrir que o pai de seu filho achava que ela estava atrs de
dinheiro no ajudava. O nico ponto positivo  que Jake tinha deixado claro que no
queria interromper a gravidez.
      -- No precisa ser um desastre. Vou casar com voc.
      Sua cabea estava rodando.
      -- Casar? Se isso  um pedido de casamento, faltou uma coisa no pedido. Vou ter
esse beb e posso cri-lo sozinha.
      Sabia que estava sendo perversa. Jake estava oferecendo tudo o que ela
sempre quis. Meia hora antes teria adorado isso, mas agora j no estava to segura.
Ela nunca o vira to zangado.
       As mos de Jake caram de seus ombros e, de repente, toda aquela emoo se
foi, e ele parecia novamente o homem que ela conhecia.
     -- No seja ridcula. No  bom criar uma criana sem um pai. Acredite em mim.
Vamos nos casar assim que tudo estiver pronto.
      Ele tinha razo. Ento, por que ela estava to relutante? Porque queria tudo:
queria que Jake a amasse, como o amava. Estava agindo irracionalmente?
       -- Voc sabe que isso faz sentido. Retiro o que disse sobre voc armar tudo
isso. Fiquei chocado e furioso pela maneira como soube da notcia e reagi mal.
      -- Muito mal -- acrescentou, mesmo entendendo seu comportamento. Contar 

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governanta fora um exagero.
      -- As duas semanas que passamos juntos foram as mais felizes da minha vida --
disse Jake, e Charlie sentiu uma ponta de esperana iluminar-se dentro dela. -- Ns
combinamos, voc sabe. Case comigo. Voc sabe que quer,
      A mo dele desceu pela curva da sua cintura e, ao senti-la, um arrepio cruzou
todo o seu corpo.
       Para ela, Jake era o nico homem do mundo e indagava-se por que discutia com
ele. Jake ofereceu tudo o que ela queria. Se ele dissesse a palavra amor... Ele passou a
mo em sua barriga, sorrindo.
        -- Suponho que o beb seja meu. No que isso tenha importncia.
        Ela foi novamente dominada pela fria e afastou aquela mo.
      -- Claro que  -- respondeu, encarando-o ofendida. -- Voc  o nico homem com
quem fui estpida de dormir em toda a minha vida, e olhe aonde isso me levou.
      -- Outra razo pela qual devia se casar comigo. Voc me acha irresistvel. -- E
um sorriso iluminou seu belo rosto. -- Voc me ama.
      -- Sexo, era apenas isso -- retrucou Charlie. -- Seu convencido, era isso que eu
estava... -- Ela parou, registrando a ltima parte daquela pergunta ultrajante. No que
isso tenha importncia, Jake estava preparado para se casar com ela
incondicionalmente. Devia am-la, mesmo que no conseguisse diz-lo. -- No, nunca foi
apenas sexo entre ns.
      Antes, quando reparou a estreiteza do corpo de Charlie e a respirao
ofegante, concluiu que devia fazer algum tempo que ela no ficava com um homem.
Agora sabia a verdade: ela era virgem. Ele a tratara de maneira abominvel. No era
estranho que ela relutasse em se casar com ele.
      Jake observou seu adorvel rosto e seu corpo. Ele estava muito perto dela e
podia sentir o calor do seu corpo, o cheiro nico. O controle que tentava manter sobre
sua prpria libido finalmente cedeu.
        Charlie recuou  medida que ele se aproximou e apoiou uma das mos no ombro
dela.
        -- Charlotta, case comigo, por favor.
      Sua cabea mandou que esperasse, o corao continuava em silncio, ouvindo o
eco do "por favor". Ela sentiu o tremor da mo que repousava em seu ombro.
Finalmente, disse:
        -- Sim -- porque o amava e no poderia dizer no.
        --Dia grazia. -- Jake a tomou nos braos, beijando-a.
      Depois de cinco longas semanas de abstinncia, Charlie adorava ver seus corpos
se misturando novamente, o apetite de sua boca, a paixo ardente que varria todas as

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suas dvidas. Ela sentiu o corpo teso de Jake e se entrelaou nele. Ele estava de volta
e ela desejava aquelas mos em seus seios, coxas. Estava sedenta por seu toque, seu
gosto, e lanou os braos ao redor do pescoo dele, segurando-o.
      -- Dio, Charlotte, senti saudade de voc -- suspirou ele, segurando seus seios,
deslizando os dedos sobre sua blusa, e ela gemeu. Uma excitao crescente invadiu-a,
dos mamilos ao quadril.
      -- Senti tanto a sua falta, Jake -- revelou, enquanto ele mordiscava seu lbio e
a beijava com uma nsia apaixonada at deix-la inconsciente e tremendo em seus
braos. -- Amo voc, amo o que faz comigo.
      -- Eu sei -- respondeu, sorrindo.
      E escorregou a mo pelo corpo dela, seus dedos brincavam na altura do short,
at que agarrou suas coxas e ela murmurou seu nome novamente.
      -- Charlie, preciso da chave do cofre...
       Jake tirou as mos das coxas de Charlie, abraou-a e praguejou ferozmente em
italiano.
      -- Opa! No  o melhor momento, mas fico contente de ver que fizeram as
pazes. -- Charlie finalmente escutou a voz do seu gerente.
     -- Jeff! -- exclamou ela, escondendo o rosto ruborizado no peito de Jake. --
Nunca ouviu falar em bater  porta?
     -- Estava pensando nisso -- disse Jake sarcstica-mente, olhando para o outro
homem.
      -- Desculpe -- disse, sem o menor sinal de arrependimento. -- Isso quer dizer
que posso avisar a todos que ouo os sinos da igreja? Vo ficar contentes.
      -- Agora entendo a atitude deles -- disse Jake, secamente.
      -- Que atitude? Algum foi rude com voc? -- indagou Charlie.
     -- No exatamente, mas acho que entendi. Todos sabem de sua gravidez, e
sabem meu nome.
      -- Talvez eu tenha mencionado -- respondeu ela, com as faces ruborizadas.
      Jake gargalhou, apertando Charlie nos braos.
      -- Como voc parece j ter falado demais, deixe-me, pelo menos, anunciar isso.
Sou o homem envolvido,  justo.
      Charlie ficou em silncio.
      -- Jeff, no? Acho que j nos conhecemos. Como pode ver, Charlotte e eu no
conseguimos nos desgrudar, ento vamos nos casar.
      -- Certamente, sr. d'Amato. Vou apenas pegar a chave.
      -- Ento, Charlotte, est certo. Vamos nos casar e no pode voltar atrs.

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      -- No vou mudar de idia. -- E, em seguida, perguntou, spera: --  porque
estou grvida? Ou voc realmente me ama?
        -- Sim, cara. Adoro voc. -- E, dizendo isso, beijou-a.
       Casaram-se duas semanas depois, em uma cerimnia ao ar livre, no jardim do
hotel. O jantar j tinha acabado, assim como os discursos, e Charlie, envolvida pelos
braos de Jake, ainda estava em estado de choque pela rapidez com que tudo
aconteceu.
        -- S mais uma -- disse Diego Fortuna, padrinho de Jake e famoso fotgrafo de
moda.
        -- Acho que devia fazer uma pose -- murmurou Charlie, um pouco intimidada.
      -- Vamos sair daqui. Quero voc s para mim. No quero desperdiar mais do dia
do nosso casamento, ou melhor, da noite, conversando com seus amigos, por mais
divertidos que sejam.
     Jake olhava para ela, sua mulher. Havia tomado a deciso certa. Conversando
com amigos dela, Jake descobriu que Charlie fazia parte da equipe de resgate da
montanha. Alm de bonita e de estar carregando seu filho, tambm era corajosa.
        -- Voc s pensa em uma coisa.
        -- E tenho culpa? Faz sete semanas.
        -- No. Tambm mal posso esperar.
      O momento mais feliz da vida de Charlie foi quando o juiz de paz disse que Jake
podia beijar a noiva e ele a tomou nos braos, beijando-a com tanto carinho que trouxe
lgrimas aos seus olhos. Mas agora ela queria mais.
       O dia em que ele a pediu em casamento fez todos vibrarem. Charlie comprou
calcinhas de renda e algumas camisolas transparentes. Ela se limitou a um vestido de
festa, devido  barriga, que ia crescer. Para o casamento, escolheu um vestido lindo
feito por um estilista.
      Diego, o padrinho, chegou na manh do casamento e Charlie o conheceu um
pouco antes da cerimnia. Ele e Jake foram colegas de quarto na faculdade e eram
velhos amigos.
     Charlie jogou o buqu no meio da multido e Amy, sua dama de honra, o agarrou.
Em seguida, se despediu e desejou a eles uma boa lua-de-mel e uma vida maravilhosa.
Ambos agradeceram.
      -- Infelizmente, por causa do trabalho, a lua-de-mel ser temporariamente
adiada, mas a noite de npcias no. Porm, se o carro no aparecer, sequer isso
teremos. Preciso falar com o Dave. Fique aqui, vou descobrir o que aconteceu --
acrescentou, dando um beijo em Charlie.
      -- Um suspiro muito profundo para uma noiva -- disse Diego, aparecendo com
uma taa de champanhe na mo.
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       -- Um suspiro de pura alegria -- respondeu, sorrindo para Diego, antes de
procurar seu marido ao redor. Ele estava to bonito naquele terno, e tinha um ar to
latino. Ela o amava.
      --Mudar seu nome de Summerville para d'Amato  conveniente para voc --
disse Diego, bebendo todo o champanhe.
       -- , sim -- murmurou Charlie, sem prestar ateno. Pensava apenas em Jake e
na noite que tinham pela frente.
      -- Voc  parente do artista Robert Summerville?
      -- Era meu pai. Foi por causa dele que conheci Jake.
      -- Agora entendo. Voc conhece Jake h mais tempo do que pensei. Fiquei
pensando nisso quando ele disse que se casaria em duas semanas. Ele nunca age sem
pensar. Mas voc deve ter conhecido Anna quando ela morava com seu pai. Voc
conheceu Jake atravs dela, ou talvez no funeral dela? A morte dela, logo aps a de
seu pai, foi uma tragdia.
      Charlie franziu o rosto ao absorver as palavras de Diego. De repente, o quadro
com uma mulher nua que Jake comprou quando a conheceu se assomou diante dela.
Agora ela sabia o nome da ex-amante de seu pai: Anna. E se podia acreditar em Diego,
Jake era um grande amigo dela. Mas por que nunca disse nada?
      -- Voc se refere  Anna de cabelos pretos longos, quase at a coxa? --
perguntou Charlie, descrevendo a mulher do quadro.
      -- Ela mesma. Ento voc a conheceu. Foi uma histria triste. Mas por que estou
falando disso? Desculpe. Hoje no  um dia para lembrar perdas passadas. Temos de
celebrar a vida. Jake  um homem de sorte por t-la encontrado. Queria t-la
conhecido antes -- acrescentou com um olhar provocador.
      -- Voc  encantador -- disse Charlie, sorrindo com dificuldade.
      Diego levantou uma suspeita em sua mente. Havia um mistrio que ela no
entendia. No entanto, ele estava certo: esse no era um dia para lembrar o passado,
mas para olhar para o futuro. Jake a amava, se casou com ela e nada estragaria esse
dia.
      -- Sempre fui encantador -- disse, deslizando seu brao pela cintura dela. -- E
Jake sempre foi trabalhador. Mas ele teve seus momentos, mais com motores que com
mulheres. Uma vez, levou uma menina para passear em um barco que ele construiu, e o
barco afundou. Nem preciso dizer que ela nunca mais falou com ele.
      A cinco metrs de distncia, Dave escutava a reclamao de Jake e acalmava-o:
       -- No se preocupe, Jake, o carro chegar em cinco minutos. Voc quer ficar
com nossa querida Charlie na Itlia? Espero que saiba que  homem de sorte. Ela 
uma mulher tipo tudo ou nada, ento melhor cuidar muito bem dela. Vamos sentir sua
falta no Resgate Internacional de Emergncia. Mas disse a Charlie que esperamos v-

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Jacqueline Baird                                              Entre o Amor e a Vingaa
la depois que o beb nascer.
         -- Voc o qu?
      Nos segundos seguintes, Jake percebeu que no conhecia sua mulher.
Assustava-o que Charlotte arriscasse a prpria vida, voluntariamente, em busca e
resgate ao redor do mundo. Seu olhar correu o salo e fixou-se nela, vendo que
conversava com Diego e que o desgraado tinha o brao ao redor dela.
      -- Charlotte no vai mais trabalhar, Dave. Tenho outros planos para ela --
revelou e seguiu em direo a ela.
         -- O que  isso? Uma associao de admirao mtua? Solte minha mulher,
Diego.
      -- Estraga-prazeres. Diego estava me contando sobre suas aventuras na
faculdade,
         -- Estava?
      Jake abraou Charlotte, puxando-a para si. Disse algo em italiano para Diego,
que respondeu igualmente rpido e lanou um sorriso malicioso para Charlie.
      -- Uma pena que j tenha de ir, Charlotte. Estvamos comeando a nos
conhecer, mas entendo a pressa de Jake. -- E entregou um carto a Charlie. -- Esse 
meu telefone. Se, algum dia, se cansar desse cara ciumento, me liga.
         -- Basta, Diego. Pare de tentar conquistar minha mulher.
      -- Como se eu fosse fazer isso. -- Diego piscou para Charlie. -- Tentei
conquistar a adorvel Amy, mas ela j tem dono. Agora estou de olho em uma
garonete.
         -- Diego  divertido. Gosto dele.
      -- Espero que no muito; voc  minha esposa agora. -- E beijou-a
apaixonadamente.
       Charlie, ruborizada e entorpecida, escutou os gritos dos convidados. Jake
agradeceu a todos e entraram no carro, que estava esperando, todo enfeitado com
latas e garrafas.




         CAPTULO OITO


      A limusine os esperava no aeroporto de Gnova e, abraada a Jake, Charlie
olhava pela janela, at que pararam em um grande porto. Um segurana o abriu e o
carro entrou no que, para Charlie, parecia uma manso.
         A casa era magnfica, muito moderna, construda de vidro e ao. Ficava a alguns

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quilmetros de Gnova, com os Alpes Dolomticos como pano de fundo e uma vista
espetacular do Mediterrneo  frente. -- Sua nova casa, sra. d'Amato. Gostou?
      -- E espetacular. -- Jake abraou-a e levou-a para dentro. -- Meu Deus, uma
escada de vidro!  fantstico.
      Em seguida, Jake apresentou-a a Marta e ao filho dela, Aldo, que, para alegria
de Charlie, falava ingls. O marido de Marta, Tomas, juntou-se a eles; era o motorista.
Todos fizeram um brinde e a famlia se retirou para sua casa, nos jardins da
propriedade. Assim que saram, Jake trancou a porta.
      -- Finalmente, a ss.
      Jake levantou-a nos braos e subiu as escadas. Com menos elegncia que o
normal, Jake tropeou nas malas ao entrar no quarto.
      -- No ouse me largar -- ameaou Charlie, rindo.
      -- Nunca.
      Lentamente, ele a colocou no cho. Os olhos dela se arregalaram quando ele
tocou gentilmente seus lbios. Ficou nervosa. Eles j haviam dormido juntos inmeras
vezes, mas agora era diferente.
      Aos poucos, ele foi tirando a roupa, at que ficou parado diante dela, com o
corpo bronzeado e musculoso, apenas com uma cueca branca que mal escondia sua
excitao. A tenso sexual se acumulava entre eles.
      -- No precisa ficar nervosa, Charlotte -- disse Jake, lendo sua mente e
chegando mais perto. -- J disse que voc est linda?
      A tenso e o calor pulsavam dentro dela, e ouviu-se um gemido quando as bocas
se tocaram.
       As mos de Jake deslizaram sobre seus seios, suas coxas. Em um nico
movimento, o vestido escorregou por seu corpo, deixando-a nua, exceto por uma
calcinha rendada.
      Jake se afastou para admirar aquele corpo magnfico, enfeitado pelo colar de
prolas e pela calcinha rendada. Estava com os seios maiores e a barriga ainda no
aparente.
      -- Parece que esperei a vida toda para v-la assim. Era incompreensvel como
Charlie, uma pessoa to confiante, de repente foi invadida pela dvida. Ele era to
perfeito, e ela queria ser perfeita para ele, mas estava grvida e fazia mais de sete
semanas desde a ltima vez em que estiveram juntos. Seus seios estavam maiores e
no to firmes. Fitou Jake em pnico quando viu um quadro atrs dele. Era um Gauguin,
uma mulher com longos cabelos negros, o que a lembrou de outro quadro e dos
comentrios de Diego sobre Anna.
      -- Quem  Anna? -- murmurou.
      Mas  medida que ela se aproximava, ele recuava. Os dedos de Jake apertavam
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Jacqueline Baird                                            Entre o Amor e a Vingaa
muito sua cintura, como uma reao  pergunta.
      -- De onde veio isso?
       -- Vi o quadro na parede, o que me lembrou o quadro que voc comprou na
galeria e algo que Diego disse hoje.
      -- Diego fala muito. Esquea o que ele disse.
      Se no tivesse sido to spero, talvez Charlie tivesse esquecido, mas tal atitude
deixou-a mais determinada a chegar ao fundo daquele mistrio.
      Antes de ficar apavorada, Charlie disse:
     -- Diego acha que podemos ter nos conhecido antes, porque ela era amante do
meu pai e sua amiga. Ele achou que Anna tivesse nos apresentado. Ela  sua ex-
namorada? -- indagou, mesmo querendo ter evitado isso.
      -- Dio, no!
       Jake estava irritado. A pergunta veio em pssima hora, mas era vlida.
Infelizmente, o tema "Anna" gerava emoes conflitantes dentro dele: a lealdade que
tinha com os Lasio, a culpa que no conseguia apagar e a frustrao que sentia por sua
mulher olhar para ele com olhos confusos, e no apaixonados.
      -- Ento por que no me diz quem ela ?
      -- Voc sabe. Era a amante do seu pai e tinha vinte anos menos que ele. Agora
vamos esquec-la e nos concentrar em ns. Essa  a nossa noite de npcias e no quero
discutir com voc.
      -- Espero que esse suspiro seja por minha causa. Mas acho que  outro tipo de
frustrao: sua curiosidade insacivel sobre um quadro.
      -- Quer a verdade? Por que no? No dizem que a verdade  o melhor para o
casamento? Anna era minha irm de criao e eu a amava. Vi quando nasceu, quando
cresceu e se tornou uma bela mulher e a vi destruda por seu pai. Ela estava
apaixonada por ele e, durante dois anos, achou que fossem se casar.
      Charlie empalideceu ao absorver as palavras de Jake. O alvio que sentia por
Anna no ser sua amante desapareceu. A verdade era muito pior. Podia esquecer uma
ex-namorada, mas nunca uma irm.
       Os vrios momentos que passara com Jake assumiram um significado diferente.
Sua primeira noite juntos. Ele ficou frio depois de fazerem amor, perguntando sua
opinio sobre o relacionamento entre um homem mais velho e uma mulher mais nova.
Ingenuamente, achou que se referia aos doze anos de diferena entre eles. Agora,
sabia que ele devia estar falando de seu pai.
      -- Meu Deus! Voc odiava meu pai, no ?
      -- Nunca o conheci, mas o odiava. No deixe que isso a perturbe. Ele est morto,
assim como Anna. E voc  minha esposa. -- Ele se aproximou e abriu o colar, que caiu

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roando em um de seus seios. -- J perdemos muito tempo.
      -- No -- gritou ela, embora seu corpo o desejasse. -- Solte-me. Precisamos
conversar.
      -- O que voc precisa est bvio. -- Jake baixou os olhos em direo aos seios
de Charlie, com os mamilos enrijecidos que a denunciavam. Beijou-a suavemente. -- E
no  conversar.
      A arrogncia e a verdade de seu comentrio atingiram-na em cheio, irritando-a.
Ele admitiu que odiava seu pai e, no minuto seguinte, esperava que ela casse em seus
braos. Era muito presunoso e, livrando-se dele, afastou-se e cruzou os braos
defensivamente.
      Era uma mulher inteligente, e de repente, diversas coisas que ele disse faziam
sentido. Apesar de ter sido guiada pelo desejo desenfreado, e mesmo pelo amor, agora
era forada a questionar por que Jake se aproximou dela. Quando foram ao museu, ele
brincou sobre sua motivao e a resposta, ela percebia agora, foi enigmtica.
        Fechando os olhos por um momento, Charlie lutou para se controlar e, ao abri-
los, viu seu rosto duro e belo.
      -- No, Jake. O que preciso de voc  a verdade -- disse, orgulhosa por
controlar o tremor de sua voz. -- Por que pediu a Ted que nos apresentasse? Se odiava
tanto meu pai, eu seria a ltima pessoa que voc gostaria de conhecer.
      -- Fiquei curioso para conhecer a filha daquele homem que tinha to pouco
respeito pelas mulheres. Mas o que isso importa agora? Estamos casados e temos uma
vida pela frente.
      Ela sabia que ele no estava dizendo toda a verdade, mas tinha conscincia de
como o amava. A noite de npcias estava se transformando em um pesadelo. Jake
estava certo, isso no importava. Ela descruzou os braos e caminhou em direo a ele.
       -- Sinto muito por sua irm. Ningum sabe melhor de que eu como meu pai era
canalha. E se Anna o amava, deve ter sido terrvel quando ele morreu. O que posso
dizer?
       -- Nada. Tudo j foi dito. -- E o desprezo nos olhos dele amedrontou-a. -- Seu
pai dispensou Anna e ns sabemos o porqu. No precisa prestar falsas condolncias.
-- Sua boca contorceu-se. -- Voc se negou a conhec-la.
      Por um segundo, Charlie achou que tinha escutado mal. Mas o desprezo dos
olhos de Jake e a firmeza de suas feies diziam que no.
      -- Eu me neguei a conhec-la?
      -- Anna me contou tudo. Seu pai a expulsou porque sua maldita filha insistiu.
Aparentemente, a menina ia visit-lo e era to egosta que se recusava a dividir o pai
com a namorada dele. Coragem sua se admitisse isso.
      -- No acredito no que est dizendo. -- Charlie desvencilhou-se das mos de

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Jake, analisando essas informaes rapidamente. O horror dessa acusao a deprimia.
A relao entre seu pai e Anna no importava. Jake, seu amor, seu marido, achava que
ela era uma maldita egosta.
      -- No -- murmurou ela, fechando os olhos. Jake no podia pensar isso dela. --
Eu amava meu pai, mas... -- Ela ia explicar que foi seu pai que nunca quis que
conhecesse suas namoradas, e no o contrrio.
      -- Mas, como dizem, o resto  histria -- interrompeu Jake, zombando. -- Seu
pai morreu e, se no tivesse morrido, eu mesmo o teria destrudo. Anna bateu com o
carro alguns meses depois e morreu. Em troca, voc herdou muito dinheiro, no foi to
mal. Agora, esquea. O passado  passado.  o presente que me importa.
      O passado molda o presente. Os comentrios de Jake sobre destruir seu pai, se
pudesse, e sobre o dinheiro que achou que ela tinha herdado a deixaram enjoada. Mas
tinha de escutar a verdade vinda dele, por mais que doesse. Havia ficado cega de
paixo por muito tempo.
      -- Segundo voc, no sou apenas uma maldita egosta, mas gananciosa tambm.
-- Sua voz estava fria e ela no sabia como sua pele podia arder por ele, mesmo
estando indiferente por dentro. -- Diga novamente por que pediu a Ted que nos
apresentasse. Agora, a verdade.
       -- Sinceramente? Porque Anna passou a impresso de que a filha de
Summerville era uma criana. Quando Ted disse que voc era uma executiva, que tinha
organizado a exposio, quis conhec-la. Poderia desculpar uma criana, mas no uma
mulher, e admito que pensei em vingana. Justia potica, se preferir. Mas assim que a
vi, a desejei. E ainda desejo.
      Vingana era uma palavra to feia, uma emoo to feia que Charlie no quis
escutar aquilo. Mas, logo, ficou horrorizada com a confiana e arrogncia de Jake,
achando que ela fosse boba a ponto de aceitar essa explicao e continuar como se
nada tivesse acontecido.
      -- Por que me pediu em casamento? -- Ela tinha de saber o pior.
      -- Voc est grvida -- disse, pousando a mo em sua barriga.
      Lgrimas de raiva e dor surgiram em seus olhos, e ela as reprimiu. Estava
totalmente consciente do corpo seminu de Jake, colado ao seu, mas sabia tambm que
ele no a amava, nunca amou e talvez nunca amasse.
      Queria gritar, mas se calou. No entanto, o desnimo dentro dela cresceu e
levou-a a um estado de torpor, congelando sua dor.
      -- E pensar que, quando me pediu em casamento, perguntei se me amava e voc
mentiu.
       -- Se me lembro bem, perguntou se eu estava casando por que voc estava
grvida ou por que a amava. Respondi "sim, adoro voc" -- disse, com um sorriso falso
nos lbios. -- A interpretao foi sua.

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       -- Uma questo de semntica -- zombou Charlie. Essas revelaes haviam
acabado com ela, mas ela tinha de ser forte, no s por si mesma, mas tambm por seu
filho.
      -- Seja honesto, Jake. Voc no me ama. Fui apenas um corpo para sua diverso,
enquanto alimentava sua vingana doentia, mas, infelizmente, eu engravidei -- disse,
sem nenhuma emoo em sua voz.
       -- Voc est errada. No quero mais me vingar, e quanto  diverso... At agora
no tive muita sorte, mas isso vai mudar.
      Ela sentiu que ele ia beij-la. Charlie levantou a mo e empurrou-o.
      -- No! --gritou.
       A boca de Jake silenciou a dela com uma paixo possessiva. Charlie tentou se
livrar dele, mas, como era mais alto e mais forte, conseguiu segur-la e deit-la
gentilmente na cama. Debatendo-se, Charlie se sentou.
      -- No me toque. No se atreva! E pode pegar esse maldito anel -- gritou,
tirando a aliana do dedo.
      Jake segurou as mos de Charlie antes que ela pudesse tirar o anel.
      -- Deixe disso, Charlotte.
      Ao ver a dor e a raiva nos olhos dela, Jake congelou.
      O que ele estava fazendo? No podia discutir com ela. Charlie estava triste, e
grvida.
      Dominado pela frustrao, Jake fitou-a: seus seios, a cintura fina e as curvas
dos quadris; a calcinha transparente rendada mal escondia a sombra de sua
feminilidade. No, no podia pensar nisso.
      Abruptamente, encarou-a. Ela olhava para ele como se fosse uma criatura
estranha, e era culpa dele mesmo. Especialistas em casamento que recomendam a
verdade absoluta tm de ser analisados. Se Charlotte no o excitasse tanto, talvez
tivesse conseguido manter a boca calada.
      Ele tampouco estaria nessa posio se outra pessoa tambm tivesse ficado
calada, pensou, amaldioando Diego por ter mencionado Anna e estragado sua noite de
npcias. Ele havia queimado o maldito quadro h semanas. No queria saber de
vingana; no queria saber de outra coisa a no ser Charlotte, percebeu chocado.
      -- A nica coisa que quero deixar  voc.
      Jake se aproximou, com o olhar furioso, enquanto ela respirava insegura.
       -- Voc no vai a lugar algum. Eu  que vou.-- Por um momento, ela achou que ele
queria dizer para sempre. -- Vamos conversar sobre isso de manh. -- Ele pegou algo
que estava cado no cho e entregou a ela. -- Quando voc se lembrar por que usou
isso hoje e crescer.

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      E saiu do quarto, batendo a porta.
      Charlie pegou o vestido amarrotado, pensando em tudo o que acontecera. Esta
era sua noite de npcias. Por que foi to ruim? Porque ela, finalmente, destruiu o
controle de Jake, seu marido, e descobriu a verdade.
       Ansiosa, pegou o vestido e comeou a tremer. Agindo automaticamente, Charlie
saiu da cama.
       Achou sua mala, pegou uma camisola azul de seda, guardou o vestido e fechou-a.
Vestiu a camisola, que no era muito quente. Mas no a comprou pensando nisso. Voltou
a deitar-se na cama e cobriu seu corpo trmulo. Ento encostou a cabea no
travesseiro e se rendeu  agonia que a dominava. Por fim, quando no tinha mais
lgrimas, apenas soluos secos, e sua barriga doa, percebeu que tinha de parar, seno
por ela, pela sade do beb.
      No sabia o que fazer. Apenas sabia que no era mais a noiva alegre de antes.
Jake tinha cuidado disso.
      -- Maldito Jake.
      Quem diabos ele achava que era? Que direito tinha de julgar a ela ou a seu pai?
Charlie se remexia inquieta na cama. Tinha de ser forte. Ela comeava a compreender
as revelaes desta noite e tentaria encontrar o melhor plano de ao. Era uma mulher
independente, pelo menos antes de conhecer Jake e deixar-se enganar pelo amor. E se
Jake achava que ela ia bancar a me e mulher agradecida, estava redondamente
enganado.
       Ainda com o nome dele em seus lbios, Charlie caiu no sono, sem saber que seu
marido tinha voltado e a fitava. Viu as lgrimas que escorriam de seus olhos fechados
e, sufocado pela tristeza, virou-se e saiu.




      CAPTULO NOVE


      -- Que bom que j acordou.
      Charlie sentou-se na cama, seu olhar mirava a porta e seus olhos arregalaram-se
ao ver Jake descalo, com um roupo de seda, entrando no quarto. Em suas mos havia
uma bandeja com o caf-da-manh, alm de um vaso com uma nica rosa vermelha.
      -- No  bem o caf-da-manh tpico de uma lua-de-mel, com champanhe, devido
ao seu estado. Mas fiz um ch e preparei uma torrada com ovos mexidos para voc --
disse ele aproximando-se da cama.
      Jake parecia to contente consigo mesmo que Charlie teve de se esforar para
retribuir o sorriso, o que fez com que ela dissesse de um jeito mais frio do que
desejava:
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      -- No precisava se incomodar.
      -- Pelo visto, as hostilidades recomearam -- observou Jake, com os olhos
ficando mais escuros e um msculo pulsando em sua mandbula enquanto colocava a
bandeja sobre a mesinha-de-cabeceira.
      Por um segundo, ela desejou no ter ignorado o que, sem dvida, devia ser um
caf-da-manh gourmet para Jake, mas foi apenas por um segundo. Afinal, ela havia se
magoado demais para, de repente, perdo-lo ou deixar para l o que havia acontecido.
     -- S estou grvida, no sou nenhuma invlida. Posso preparar meu prprio caf-
da-manh.
      -- Mas no precisa. Esse  o trabalho da Marta. Mas dei-lhe folga hoje por
algum motivo que j nem lembro mais -- respondeu ele. Ele serviu uma xcara de ch e
entregou a ela, que a pegou com todo o cuidado para no encostar naquela mo.
      -- Obrigada -- murmurou ela, olhando de relance o belo rosto de Jake.
      Uma luz cnica brilhou naqueles olhos escuros que encontraram os dela.
      -- Prego. Coma, desfrute de sua refeio e depois conversaremos.
      -- Mas ns no temos mais o que conversar. Voc j disse tudo o que tinha para
dizer ontem  noite.
      Ela bebeu o ch e devolveu a xcara  bandeja. Ela no queria conversar. No
queria nem olhar para ele. Charlie sentia-se como se um vu tivesse sido arrancado de
seus olhos na noite anterior e era como se, pela primeira vez, ela tivesse visto Jake
tal qual ele era: um idiota cruel e desumano que reagia sempre que qualquer um
cruzava seu caminho, como aconteceu com seu pai e com ela prpria.
      -- Ontem  noite eu falei mais do que devia -- bufou Jake desgostoso. -- Mas o
passado est morto e enterrado, junto com o seu pai e Anna. Ns nos casamos ontem.
Esquea a noite passada e vamos comear daqui. -- Ele se sentou na beira da cama e
cobriu a mo dela pousada sobre a colcha com a dele.
      O calor sensual do seu toque provocou uma resposta imediata no corpo de
Charlie, o que a deixou espantada e com raiva. Bruscamente, ela retirou a mo,
respirou fundo e levantou a cabea. Os olhos azuis colidiram com os negros e, por um
momento, ela ficou consternada pela ternura na expresso de Jake. Mas ele era um
timo "ator", lembrou-se ela logo em seguida.
       --  muito conveniente me dizer para esquecer a noite passada. Eu devia estar
louca quando aceitei me casar com voc. Voc  um mentiroso nojento e desonesto. --
Ela havia se comportado como a maior tola do mundo e doa muito pensar que havia se
apaixonado to profundamente por Jake, quando seus planos eram to diferentes. Mas
ela no levaria aquela loucura e aquele teatro todo adiante. -- E quero a anulao deste
casamento. -- O sorriso desapareceu do belo rosto de Jake e, se ela no o conhecesse
to bem, acharia que ele estava arrasado, mas logo em seguida os olhos escuros
estreitaram-se com raiva e o clima entre eles, de repente, ficou eltrico com toda

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aquela tenso pairando no ar.
      -- No seja ridcula, Charlotte. Eu... - Ela o interrompeu friamente.
      -- No estou sendo ridcula, s estou lhe informando a minha deciso: quero
anular o casamento.
       -- Nunca. Voc  a minha mulher -- rebateu ele, seu olhar viajando pelo rosto
bonito, mas rebelde dela, chegando at a altura dos seios de Charlotte que se
insinuavam sob uma camisola de cetim azul. O autocontrole de Jake estava no limite.
Ele se sentiu mal por ter jogado o vestido nela na noite anterior. Mas ou ele fazia isso
ou partia para cima dela. Ele achou que ela fosse voltar a se comportar como uma
pessoa adulta. Mas ela estava ainda mais determinada a desafi-lo. -- Voc vai ficar na
minha casa -- mandou ele com um tom de voz ameaador. -- E na minha cama.
Entendeu?
      Charlie chegou a tremer. Sua pele ficou arrepiada devido  certeza com a qual
Jake envolvia suas palavras. Mas ela se recusava a concordar com ele. Ela j estava de
saco cheio de ser seu capacho.
      -- S se for nos seus sonhos. Vou embora daqui amanh mesmo!
       -- No vai, no -- disse ele balanando a cabea. Ela percebeu que ainda estava
na cama e que devia ter escolhido uma hora melhor para conversar com ele sobre
aquilo. Jake a olhava fixamente, seus traos duros como pedra enquanto um sorriso
selvagem e sensual brincava em seus lbios. Ela desviou o olhar, mas sentiu a mo
forte em seu queixo virando o rosto dela para o dele novamente. O pulso dela marcava
um ritmo alucinado, que se espalhava por todo o seu corpo devido ao toque de Jake, e
ela ficou horrorizada com a prpria fraqueza.
      -- No vou ficar aqui com voc. Por enquanto, no.
      O sorriso de Jake tinha um ar irnico.
       -- Voc no tem escolha. A equipe de seguranas aqui  fantstica. Voc no vai
a lugar algum sem a minha permisso.
       -- Voc no pode me obrigar a ficar aqui. Voc no ousaria fazer uma coisa
dessas. -- Charlie encarou-o e viu o brilho implacvel em seus olhos escuros. Ficou
claro que ele ousaria fazer qualquer coisa para conseguir o que queria.
      -- Sei que no vou precisar. Eu conheo voc, Charlotte. Voc quer o melhor
para nosso filho e sabe que isso significa pais morando juntos, em harmonia. -- Ele
deslizou a mo pelo pescoo dela, trazendo-o para perto de si e deu-lhe um beijo na
bochecha. -- Sei tambm que voc  orgulhosa demais para voltar  Inglaterra e
admitir o fracasso -- completou ele que, abaixando a cabea, tomou os lbios dela,
dando-lhe um beijo profundamente provocante.
      Contra a vontade dela, um fogo intenso comeou a se alastrar por suas veias,
enchendo de vida cada nervo em seu corpo. A presso sedutora dos lbios do italiano e
a forma quente com que ela correspondia ao beijo eram humilhantes, mas ainda assim

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ela se sentiu desolada quando ele parou de beij-la. Foi a que ela percebeu onde o
olhar dele havia pousado e, agarrando o lenol, ela se cobriu, dando-se conta de que
havia vestido uma camisola muito decotada.
      Aqueles olhos escuros estreitaram-se ao v-la ficar ruborizada.
      -- Isso  permitido, Charlotte -- brincou ele. -- Voc  a minha esposa, em
breve ser a me do meu filho.
      Charlie viu a arrogncia e a confiana mscula no olhar dele e seus olhos
fecharam-se em resposta  dor que sentia por dentro. Ela queria chorar, mas o
orgulho no permitiria. E o orgulho era s o que lhe havia sobrado. Ela abriu os olhos.
      -- Segundo voc, estou presa neste lugar. O que voc pretende fazer? Fazer de
mim sua prisioneira?
      A expresso de Jake revelava sua fria frustrada.
      -- Dio, no! Mas se comportando desta forma voc faz qualquer homem ter
vontade de fazer exatamente isso -- respondeu ele num tom spero. -- Como voc
espera que eu reaja, Charlotte? Voc est dizendo que quer o fim do nosso casamento,
mas mal nos casamos! E tudo isso por causa de um maldito quadro -- completou ele.
       -- Um quadro sobre o qual voc mentiu para mim na noite em que nos
conhecemos -- disse ela amarga. -- Voc disse que o queria como um investimento.
Acreditei em voc, mas eu deveria ter imaginado que voc tinha segundas intenes ao
v-lo olhar maravilhado daquele jeito para o quadro.
       Jake olhava fixamente para ela e permaneceu em silncio por um instante que
pareceu uma eternidade. Quando finalmente falou, sua voz estava ameaadoramente
suave.
      -- No era uma mentira. Para qualquer outro comprador poderia ser a verdade.
Quanto ao meu embevecimento, era incestuoso ver aquele quadro. Comprei-o para
destru-lo antes que os pais de Anna descobrissem sua existncia. Eles j sofreram
demais ao perder a filha, no precisavam sentir a dor de ver o corpo nu da filha sendo
exibido para o mundo. E voc, Charlotte, deveria ter pensado nisso antes de expor a
coleo particular do seu pai ao pblico, sem falar nada com as pessoas envolvidas, s
para ganhar dinheiro.
      Charlie teve dificuldade para engolir aquelas palavras. O ltimo comentrio dele
confirmou mais uma vez o que ela j sabia: ele realmente a via como uma mulher
egosta e gananciosa. Definitivamente, no era algo positivo para um casamento.
      De repente, a dor de Charlotte deu lugar a um rancor. Ela poderia explicar que o
dinheiro era para caridade, mas aquele arrogante desprezvel no merecia saber disso.
Jake era to seguro de si, to confiante. Achava que sempre estava certo. H dois
minutos ele havia dito que a conhecia muito bem. Que piada!
      -- Ento, para voc, s penso em dinheiro. Voc realmente no me conhece --
disse ela, amarga. Por ela, ele podia pensar o que quisesse.

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      Jake balanou a cabea. A imagem de Charlotte como uma mulher calculista e de
sorte por ter herdado os negcios e a herana do pai abrandou-se nas duas semanas
que haviam passado juntos. E a recusa de Charlotte com relao s roupas de grife,
sua adorao por bichinhos de pelcia e a revelao de Dave sobre seu trabalho de
resgate fizeram explodir as dvidas que estavam esquecidas.
       -- Talvez eu no a conhea, mas quero conhecer. E  por isso que precisamos
conversar -- disse ele em voz baixa, enquanto seus dedos longos e esguios desfaziam o
n do cinto do roupo que vestia. Ao observ-lo, Charlie teve a estranha sensao de
que ele estava nervoso. Seus olhos azuis encontraram os olhos escuros dele e,
intrigada, ela acabou no dizendo as palavras de recusa que estavam na ponta da
lngua. -- O meu erro, como voc diz, foi no revelar intimidades das pessoas com
quem me importo quando nos conhecemos. E vamos ser honestos: voc escondeu
aspectos da sua vida tanto quanto eu. E a revelao de Dave de que voc trabalhava
para ele na Equipe de Resgate Internacional de Emergncia foi um choque para mim.
      -- Nunca tocamos nesse assunto -- defendeu-se Charlie, olhando-o apreensiva,
sem saber ao certo a onde ele queria chegar.
      -- Talvez ns dois no tenhamos nos aberto de verdade um para o outro,
Charlotte. Mas temos de acabar com isso. Assim como no posso deix-la correr riscos
nessa equipe de resgate. Ns devemos isso ao nosso filho que est para nascer. Temos
de conseguir manter este casamento e a primeira regra para conseguirmos  esquecer
o passado e seguir em frente a partir daqui. Ns temos muita coisa em nosso favor.
Nos damos muito bem na cama. E, alm disso, sou um homem rico. Posso dar-lhe tudo
de que precisa. Tanto voc quanto nosso filho tero tudo que quiserem. O que mais
uma mulher poderia querer? -- perguntou ele tendo a cara-de-pau de sorrir.
      "Amor", pensou ela. E fez esforo para segurar as lgrimas que brotavam em
seus olhos.
      -- Nada. Voc est certo -- concordou ela, sem acreditar naquilo por um
segundo. O conceito que ele tinha de "casamento" era inacreditvel. No passava de
um acordo de negcios: ele entrava com o dinheiro e, assim, tinha a esposa e o filho
com ele. Mas quais eram as opes dela?
      Ela no estava conseguindo pensar direito e a presso de tentar manter a
compostura evitou que ela comeasse a discutir com ele. Ela passou a mo na testa
numa tentativa de se acalmar.
      -- Aqui, deixe-me fazer isto. -- Jake comeou a massagear as tmporas de
Charlie.
      As plpebras dela fecharam-se, sensveis ao toque dele. Ela respirou fundo e
suspirou.
      -- Melhorou? -- perguntou Jake.
      -- Muito -- murmurou ela, abrindo os olhos lentamente. Seu rosto estava


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prximo ao dela. As mos de Jake passaram a segurar os ombros de Charlie enquanto
a boca pousou sobre os lbios dela. Charlie, surpresa, abriu levemente a boca e Jake
aproveitou para introduzir a lngua dentro dela. Ela chegou a levantar as mos para
tentar afast-lo, mas ao sentir o trax forte e quente contra seu corpo, e o beijo que
agora se tornara ainda mais profundo, Charlie deixou-se levar. Sua reao apaixonada
era humilhante, mas inegvel. E quando a boca dele deslizou at a parte sensvel da
garganta dela, Charlie deixou escapar um leve gemido.
      -- Quero voc -- afirmou Jake. A cor de seus olhos misturava-se a um desejo
incontrolvel. Aquelas mos guiaram o corpo de Charlie, que se apoiou contra o
travesseiro. O corpo dele foi seguindo o dela. -- Voc  minha, Charlotte. Esquea
todo o resto e deixe que nosso casamento comece daqui.
      A intensidade do seu olhar excitava-a e ameaava-a ao mesmo tempo. Ela queria
no desej-lo, mas era intil resistir. O som rouco da voz a seduzia e sua boca roubou-
lhe mais um beijo. Com os dentes, ele deu uma mordiscada no lbio inferior de Charlie
e lambeu-o logo em seguida, antes de se apoderar mais uma vez de toda a sua boca.
       Um leve gemido escapou dos lbios dela quando ele afastou os lbios e deitou-se
sobre o corpo dela. Ele retirou o roupo e a camisola azul que Charlie vestia e ficou
analisando a nudez dela com um prazer intenso.
      -- Voc  to bonita! -- O olhar de Jake pairou nos seios intumescidos de
Charlie, antes de mirar o rosto ruborizado dela.
      Charlie tinha a sensao de que seu corpo inteiro estava ruborizado. Seu
corao batia acelerado. Ela o olhou, analisou seus lbios fartos, desceu at o trax
musculoso observando seus plos at a altura do umbigo, e voltou a olhar o rosto de
Jake. Ela mal podia acreditar naquela perfeio mscula, como sempre.
      Jake ergueu um de seus dedos longos e com um toque leve e suave percorreu a
curva do pescoo de Charlie, seus lbios, garganta, e desceu at seus seios.
      -- Gostosa -- exclamou ele. -- Quero prov-la. A cabea de Jake seguiu o mesmo
percurso de seu dedo, parando nos lbios de Charlie e descendo, logo em seguida, para
lamber os seios dela.
      O corpo esguio de Charlie arqueou-se involuntariamente ao sentir o prazer
daqueles dedos brincando entre suas coxas. Seu cheiro msculo e seu toque delicioso
acenderam um fogo dentro dela que s seria extinto aps ele a possuir por inteiro.
      -- Dio, preciso de voc, Charlotte -- gemeu ele, dando-lhe mais um beijo. E ela
pde sentir isso na paixo do seu beijo. O fato de ele ter dito "preciso", em vez de
"quero", fez os sentidos dela entrar em ebulio.
      -- Voc me quer, Charlotte. -- Seu rosto, emoldurado por aqueles
cabelos.negros levantou-se dos seios dela. Seu olhar brilhante procurou o dela. -- Eu
quero voc, sempre quis -- murmurou ele.
      Ele estava certo. No tinha como negar. Ela o amava e o corpo dela

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praticamente implorava pelo dele, mas Charlie sabia que ele sentia apenas desejo por
ela. Mas ela nem ligava mais para isso. Totalmente tomada pela paixo, deu-lhe um
beijo, passando as mos pelo corpo musculoso de Jake. Ela o acariciava e provocava-o
com a boca e com os dentes, pondo em prtica todas as tcnicas que ele a havia
ensinado, enquanto ele fazia o mesmo por ela. Ele ritmou o prazer dela com o prprio e
guiou-a hbil e eroticamente quase at o xtase.
       Os olhos de Jake brilhavam cheios de desejo no momento em que levantou o
quadril dela e penetrou-a. O gemido que quase escapou da boca de Charlie foi
silenciado com o pousar dos lbios dele sobre os dela.
      Ele comeou a se mover mais profunda e rapidamente, seu corpo instintivamente
acompanhava seu ritmo at que ficou praticamente impossvel prolongar o prazer. A
fuso dos corpos deles tinha uma intensidade mstica e ela teve de morder o lbio
para no gritar o nome dele enquanto seu corpo se retorcia com o clmax, o que fez
Jake gozar tambm.
      A cabea pendeu sobre o ombro de Charlotte, que pde ouvir o gemido msculo
de satisfao ecoar em seus ouvidos. Ela sentiu o bater acelerado de seu corao
contra o dela e deixou que as mos passeassem pelo corpo suado.
      "Ser que j havia sido assim to profundo?", pensou ela. A agressividade dela
havia despertado uma reao intensa em Jake, que conseguiu excit-la de uma forma
inacreditvel, levando-a a um clmax igualmente incrvel.
      Talvez o casamento deles pudesse mesmo dar certo...
      -- Voc  a minha esposa, mia amore. Pelo que me lembro, nos casamos ontem.
      Ela viu a satisfao estampada em seu rosto e a sensao de traio voltou 
sua cabea.
      -- Como se eu pudesse esquecer. -- Ela virou o rosto. No estava reclamando
por causa da palavra "esposa", mas sim de "mia amore". Mas ela no tinha a menor
inteno de dizer isso a ele.
      Ela no era seu amor, nunca havia sido e nunca seria. Ela significava tanto para
Jake quanto todas as outras mulheres com quem ele j havia dormido.
      -- Charlotte. -- Ele se apoiou sobre o cotovelo e olhou para ela. -- Sei qual  o
problema. Voc nunca toma caf-da-manh. -- Ele retirou o cabelo louro do rosto dela
em um gesto suave. -- Errei novamente. Voc precisa comer em intervalos regulares.
Meu Deus! -- Ele olhou para o relgio e pulou da cama. -- Tenho uma reunio hoje de
manh. Mas antes, temos hora marcada para voc no mdico.  daqui a quarenta e
cinco minutos. Vou preparar um sanduche para voc comer no carro.
      -- No vou a lugar nenhum com voc. S porque transamos no significa que voc
possa me dizer o que fazer.
      -- Ns no transamos apenas, e no temos tempo para discutir mais uma vez.
Voc vai ao mdico, sim, nem que eu tenha de carreg-la at l.

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      -- Mas para qu? Eu estou bem -- perguntou ela. Jake lanou-lhe um olhar
cortante.
      -- O que voc acha? Para confirmar que voc est mesmo grvida. Afinal, foi por
isso que me casei com voc. -- Ele sabia que estava cuspindo tais palavras em um
momento de raiva, mas achava que j estava tudo bem entre eles. Agora, olhando para
Charlotte, ele j no tinha tanta certeza. -- Voc tem vinte e cinco minutos -- disse
antes de sair do quarto.
      Vinte minutos depois, Charlotte foi para a sala, onde Jake a esperava.
      -- Uma mulher pontual. E muito atraente -- elogiou Jake.
      -- J que eu tenho de ir ao mdico, podemos ir logo? -- perguntou ela.
       -- Claro. Tome isto. -- Ele lhe entregou um sanduche e foram l para fora, onde
o sol matutino brilhava.
      Uma limusine preta esperava por eles, e um homem que ela nunca vira antes
estava abrindo a porta para ela.
      -- Charlotte, este  Marco -- apresentou Jake. -- Ele tomar conta de voc
quando Tomas no estiver por perto.
      -- No preciso de ningum para tomar conta de mim. Posso me virar sozinha.
      Ele tocou sua cintura, fazendo um gesto para que ela entrasse no carro.
      -- E coma.
      Pelo menos comendo ela no teria de conversar com ele. E para sua surpresa, o
sanduche estava timo.
       O ginecologista era o dr. Bruno. Ele falava ingls fluentemente e Charlie gostou
dele logo de cara. Ele lhe contou que conhecia Jake havia anos.
      Mas ela no gostou muito, no final da consulta, quando Jake ficou fazendo
inmeras perguntas sobre a sade dela e a do beb.
     -- Voc quer parar com isto? -- cochichou Charlie em um momento em que o
mdico havia virado de costas. -- Isso no tem nada a ver com voc.
      -- A criana tem tudo a ver comigo -- respondeu Jake, que continuou a
conversar com o mdico, s que agora em italiano, e Charlie passou a no entender
mais nada do que conversavam.
      Quando finalmente saram do consultrio, Charlie deu um suspiro de alvio.
      -- Sei que tem uma reunio, ento, vou dar uma volta, fazer umas compras --
disse Charlie soltando, rapidamente, a mo de Jake.
      Ele pegou a mo dela novamente.
      -- Pode ir. Minha casa no  nenhuma priso. Mas Marco vai acompanh-la e,
antes que reclame, ele vai com voc para que no se perca. A cidade  muito grande e

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voc no a conhece bem -- respondeu Jake.
      -- Parece o discurso de um carcereiro -- disse ela, sabendo l no fundo que
Jake estava certo.
      -- Achei que tivssemos nos acertado hoje de manh, mas estou vendo que me
enganei. Pense o que quiser, mas Marco vai com voc -- disse ele antes de ir embora.
      Era doloroso admitir, mas a verdade era que ela no queria mais deixar Jake.
Ela no deixou de am-lo mesmo sabendo que ele s havia casado com ela porque
estava grvida. Ela o observou partir, seus olhos repletos de um misto de raiva e
mgoa.
     Ela no foi fazer compras. Foi direto para o lar, se  que algum dia ela poderia
chamar aquela casa assim.




      CAPTULO DEZ


      Charlie comeu frutas e cereal de caf-da-manh, na cozinha, com o jovem Aldo.
Quando ele foi para a escola, o sorriso dela deixou seu rosto. Era triste pensar em seu
casamento e perceber que seu melhor amigo e a pessoa com quem passava a maior
parte do tempo era um menino de oito anos de idade.
      Hoje fazia uma semana que ela havia se casado, mas parecia ter sido h muito
mais tempo.
      Ela nunca via Jake durante o dia. Os jantares ou eram silenciosos ou um campo
de guerra.
      Eles dormiam na mesma cama, mas ela estava comeando a pensar que era s
para manter as aparncias, para evitar a fofoca entre os empregados. Uma ou duas
vezes ela havia acordado durante a noite e encontrado aquele brao em volta dela.
Mas eles nunca mais haviam feito amor, desde a manh desastrosa aps a noite de
casamento. Era doloroso admitir, mas ela sentia falta do sexo.
      Ele sempre se deitava tarde e j havia ido embora quando ela acordava. Mas
esta manh foi diferente.
      -- Voc j no devia ter ido correr atrs da sua fortuna?
      -- No se preocupe, Charlotte. No pretendo passar muito mais tempo aqui. E o
que h com voc? Cad o seu bom humor?
      -- Meu bom humor est intacto, mas no  de espantar que ele desaparea
quando estou com voc. Afinal, na noite do meu casamento descobri que meu marido
estava se casando comigo por vingana e por causa do meu filho, apenas.
      -- O amor... Uma emoo pobre na minha opinio.

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Jacqueline Baird                                             Entre o Amor e a Vingaa
      -- Eu acredito no amor.
      -- Voc deve precisar dessa iluso por causa do seu pai, um homem que no
respeitava as mulheres, o casamento, nem nada -- disse ele.
      Ela ficou plida com tais palavras, mas teve de reconhecer que eram
verdadeiras at certo ponto.
      -- Voc disse que me amava inmeras vezes, Charlotte, mas o que voc sente
por mim  desejo, algo que voc nunca havia sentido.
      Charlotte ficou ruborizada.
      -- Seu cabelo est uma baguna -- comentou ele. -- Hoje  noite vamos jantar
fora e voc vai ao cabeleireiro fazer essas coisas que mulheres fazem. Sophia, minha
secretria, vai acompanh-la.
       Sophia estava esperando por ela na sala. S de olhar para aquela morena
maravilhosa, Charlie se sentiu pssima. Para piorar, Jake falou qualquer coisa em
italiano com ela e ambos deram risada.
      -- Charlotte, esta  Sophia, meu brao direito. Relutante, Charlie deu um passo
 frente e cumprimentou-a.
      -- Tudo bem? -- perguntou Charlie imaginando quo prxima ela era de Jake.
      -- Tenho de ir -- disse Jake. -- Marco acompanhar vocs duas.
      Sophia virou-se para Charlie.
      -- Vamos?
       Jake estava atrasado. Ele havia pedido a Charlie que ficasse pronta s 19 horas,
e ela j estava esperando por ele havia dez minutos.
      Jake chegou logo depois e notou a diferena do cabelo dela. Estava muito
elegante, muito chique. As muitas facetas de sua mulher fascinavam-no. Ela parecia
uma adolescente brincando com Aldo.  noite ficava mais reservada sentada  sua
frente na mesa de jantar. E era linda dormindo. Ele podia ficar horas observando-a.
      Charlie vestia um vestido azul que combinava com seus olhos.
      -- Nada mal -- elogiou Jake ao v-la. -- Sophia fez um bom trabalho. Agora vou
trocar de roupa. Voc podia trazer uma dose de usque para mim -- pediu a Charlie.
      Pela primeira vez, ela deixou o orgulho de lado, pegou o usque e subiu para o
quarto.
      Ao ver que ela havia feito o que ele pedira, Jake arregalou os olhos.
      -- Estou surpreso -- disse ele pegando o copo da mo dela. -- Voc est linda,
mas falta algo neste vestido -- afirmou ele deslizando um dedo pelo pescoo de
Charlie, o que a deixou com frio na barriga. -- Ele no reala muito o seu brilho
natural.


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Jacqueline Baird                                             Entre o Amor e a Vingaa
      -- Eu no preciso -- respondeu ela.
      Foi a que ele ps um colar de safiras e diamantes no pescoo dela.
      Charlie levantou a mo para tocar a jia, mas Jake agarrou seu punho e colocou
nele um bracelete com as mesmas pedras.
      -- Eu no quero...
      -- Voc quer, mas no vai admitir que quer. Charlie pensou em tirar as jias.
      -- Nem pense em fazer isto -- ordenou Jake lendo sua mente.
      -- Voc no pode me comprar assim.
      -- Sei disso.
      No carro, Jake explicou que seria uma recepo de casamento para os amigos e
colegas de trabalho que no puderam comparecer  cerimnia na Inglaterra.
      Eram quase 20 horas quando chegaram no salo de jantar. Jake tomou-a peio
brao, conduzindo-a, e apresentou-a a um casal de idosos que vinha a seu encontro.
Eram seus pais adotivos, o sr. e a sra. Lasio. Ela ficou mexida com a tristeza aparente
nos olhos deles. Aquilo a fez perceber que a reao de Jake diante da morte da irm
no fora assim to exagerada.
      -- No se preocupe. Eles no sabem -- murmurou Jake, lendo seus pensamentos
novamente e conduzindo-a at um outro grupo de pessoas. Na meia hora seguinte,
Jake a apresentou a diversas pessoas.
      Ela conheceu Paulo Bruno, o filho do mdico, e sua mulher, Stephanie. Logo, eles
estavam dando-lhe os parabns pelo casamento e pela gravidez.
      Charlie lanou um olhar raivoso a Jake, percebendo que ele nem se importava
que soubessem que ela estava grvida.
      -- Vou ao banheiro -- disse ela.
      No caminho, Stephanie pegou a mo de Charlie.
      -- Nunca havia visto Jake to apaixonado. Estou muito feliz por vocs. Ele ser
um timo pai. E no d ouvidos para a fama de mulherengo dele. Paulo me disse que 
tudo um grande exagero. Claro que ele nunca foi nenhum santo, mas ele  um homem
de princpios, chega at a ser antiquado em relao a determinadas coisas. Ele ser um
marido maravilhoso!
      Se Stephanie queria confort-la ao falar sobre a fama equivocada de
mulherengo de Jake, a atitude teve o efeito contrrio.
       -- Charlotta, pensei que tivesse se perdido -- disse Jake abraando-a pela
cintura quando voltou do banheiro. Aquele gesto lhe trouxe certo alvio aps ouvir as
palavras de Stephanie. -- O jantar vai ser servido -- informou ele, conduzindo-a ao
salo de jantar.
      Todas as mulheres estavam muito elegantes e Charlie agradeceu em pensamento
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a Sophia, que a ajudou a escolher o que vestir. E Jake estava certo quanto s jias.
Todos as usavam. No s as mulheres, percebeu ela ao ser apresentada ao Signor
Dotei-lo. Ele tinha um diamante enorme na orelha, e um crucifixo enorme de diamantes
que brilhava em seu peito bronzeado.
      Jake percebeu o espanto de Charlie diante das jias de Dotello.
     -- Ele vende jias e gosta de exibir seus produtos -- explicou ele quando o
homem j no estava mais por perto.
       Sentaram-se em uma mesa com os pais adotivos de Jake, Sophia e o marido,
Gianni, e Paulo e a mulher, Stephanie, que sorria para Charlie como se fosse uma velha
amiga.
      A comida estava deliciosa e o champanhe, bem como a conversa, rolou solto
durante todo o jantar.
      Jake cochichou com Charlie para que ela reparasse em Lenka, a modelo que
estava com Diego.
      -- Ela faz bem o tipo dele. Diego adora modelos.
      -- E voc, no? -- gozou Charlie.
       -- J sa com vrias modelos, no posso negar. Mas ainda prefiro uma inglesa
loura e linda que conheo...
      -- Ei, vocs dois! Por que no inauguram a pista de dana? -- sugeriu Diego.
      -- Vamos? -- disse Jake, pondo-se de p e pegando a mo de Charlie.
      Com todos os amigos por perto, ela no podia negar. Era incrvel como ela sabia
pouco a respeito de Jake, pensou ela ao sentir o brao em volta de sua cintura.
      --  engraado... Nunca danamos juntos. Ser que eu consigo?
      -- Confie em mim -- murmurou Jake, sorrindo para ela. -- Para uma mulher que
se move como voc na cama, danar vai ser moleza!
      E ele estava certo.




      CAPTULO ONZE


       Eles danavam, uma das mos de Jake acariciava delicadamente as costas
desnudas de Charlie. Percorreram o salo sob os aplausos da multido. Depois outros
casais se juntaram a eles.
      -- Graas a Deus. Odeio ser o centro das atenes -- sussurrou Charlie.
      -- Eu que agradeo a Deus por voc -- sussurrou Jake com um olhar intenso.


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       Jake no costumava fazer elogios, mas pareceu to convincente que Charlie
acabou acreditando. Ela sentiu aquele corpo excitado contra o dela e um calor familiar
a invadiu.
      Charlie sabia que ele no a amava, mas ela necessitava de sua fora, do calor e
do poder de ser possuda por ele. Seus dedos instintivamente acariciavam o pescoo
de Jake e ela estava entregue  msica lenta e ao puro prazer de estar naqueles
braos. Charlie e Jake estavam envolvidos num mundo s deles, s havia a estimulao
sensual de dois corpos em perfeita harmonia.
      De repente, o ritmo mudou. Jake parou.
       -- Daqui h quanto tempo acha que podemos ir embora de nossa prpria festa
de uma maneira decente? Ou melhor, no meu caso, indecente. -- A presso crescente
das mos de Jake nas ndegas de Charlie lhe mostrava exatamente o que ele queria
dizer. Ela no respondeu, apenas sorriu sensualmente.
      -- J chega, estamos indo.
      -- No podemos, os convidados vo ficar decepcionados -- sussurrou Charlie,
incapaz de convenc-lo.
      -- No necessariamente -- sorriu Jake. -- Siga-me.
     Depois de Charlie ter falado com os pais de Jake e alguns convidados, estava
novamente no banco de trs da limusine.
      -- O que voc disse para as pessoas me olharem com tanta simpatia?
      -- Disse que no estava se sentindo muito bem e precisava descansar.
       -- Voc disse isso? -- Charlie deveria ter ficado furiosa, mas em vez disso
sorriu. -- Mentiroso!
      -- No exatamente, eu preciso me deitar, desesperadamente... com voc. O
polegar de Jake acariciava a nuca de Charlie e ento sua boca comeou a beijar
calmamente os lbios dela.
       Os olhos de Charlie se fecharam e a mentira de Jake se tornou realidade. Ela
sentiu-se inebriada. Infinitas sensaes de cansao invadiram seu corpo, cansao e
amor. Sua boca abriu-se sob a dele, deixando escapar um pequeno gemido, uma das
mos de Jake se entrelaava em seu cabelo, estragando o lindo e requintado penteado.
Nem passou pela cabea de Charlie resistir quando as mos dele entraram em seu
vestido e comearam a brincar com seus mamilos. Charlie encolheu-se, deixando o
calor envolv-la como um rio de fogo. Ela o queria, ela precisava t-lo.
      Em poucos minutos estavam nus na cama, embora Charlie no se lembrasse de
como haviam chegado l. Ela colocou as mos ao redor do pescoo de Jake e gemeu de
prazer ao sentir as mos dele acariciarem seus seios. Um calor correu em suas veias,
excitando-a, enquanto se arqueava contra o delicioso tormento de seus dedos astutos.
Charlie gemeu alto quando ele parou de beij-la e afundou a cabea para colocar os

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mamilos em sua boca, primeiro um, depois o outro. Os msculos de Jake estavam
retesados de desejo, deixando-a quente e molhada, completamente excitada e pronta
para ele. As mos de Charlie passaram fervorosamente pelo corpo de Jake, que era
uma mistura de prazer e calor. Ele a acariciava, beijando sua barriga e sussurrando
palavras de adorao ao filho que estava naquele ventre. Ento, com a lngua e as
mos, continuou sua aventura sensual, encontrando cada uma das pulsaes de Charlie
e provocando todas as partes ntimas de seu corpo, at que ela comeou a tremer e se
rendeu ao prazer ertico que ele a proporcionava.
      Jake ficou excitado e ela encarou fascinada a sua ereo, uma fora potente e
magnfica entre suas coxas, louca de desejo. As mos do italiano a levantaram e l
estava ele, penetrando-a lentamente, centmetro por centmetro, numa explorao
sensual que a eletrificava, at que todos os nervos de seu corpo gritaram.
      Ele a penetrou e a boca mais uma vez encontrou os seios de Charlie. Ela se
agarrou s costas dele e acariciou sua pele com os dentes, excitada de desejo, e
gritou quando seu corpo explodiu de prazer.
      Jake soltou um grito profundo e primitivo e aumentou o ritmo. Aps um
movimento final, que pareceu tocar o tero de Charlie, teve de parar repentinamente.
Recostou-se na cama, levando-a consigo. Ela se espalhou em cima dele. seu corpo
trmulo e sua cabea sobre seu peito.
      Os braos de Jake a envolveram delicadamente, acalmando seu corpo que
tremia, at que ela suspirou e permaneceu esttica em seus braos.
      Com carinho, ele a empurrou para o lado e se debruou sobre ela.
      -- Dio! Preciso tanto de voc, amore mia -- disse beijando-a. Ele precisava dela.
Era msica para seus ouvidos e, nessa hora, ela nem se queixou do amore mia, j que
uma profunda sensao de paz a envolvia. Depois desse momento, ela poderia permitir-
se acreditar nele.
      Entretanto, em seguida ela teve uma rude desiluso, quando ele disse:
      -- Mas eu no deveria ter feito isso!
       -- Sado da festa? Tenho certeza de que ningum vai se importar, eu no me
importo. -- Ela levantou os olhos azuis e por um momento viu uma emoo profunda nos
olhos negros de Jake.
     -- Talvez no, mas no foi isso que eu quis dizer. Eu enlouqueceria se
machucasse o beb.
      -- No se preocupe com isso.
      -- E como voc sabe, j teve um por acaso? -- brincou, gentil.
      - No, mas voc tambm no -- contestou ela.
      -- Quase tive um, certa vez -- sussurrou ele. Ela arregalou os olhos e uma
angstia fez com que tirasse as mos em choque.

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      -- Mas voc... como? -- gaguejou. Ela sentiu uma repentina tenso no corpo de
Jake e escutou sua voz profunda:
      -- Eu era jovem e irresponsvel, tinha um relacionamento nada srio com minha
namorada, quando ela me contou que estava grvida. Naturalmente, me ofereci para
casar com ela. Comprei o anel de noivado que queria e lhe dei o dinheiro que pediu para
organizar o casamento, mas quando ela percebeu que eu havia aplicado a maior parte
do dinheiro no meu negcio e que no era to rico quanto imaginava, minha noiva gastou
o dinheiro fazendo um aborto e uma viagem.
       -- Meu Deus, isso  revoltante -- exclamou Charlie, suas mos involuntariamente
acariciavam o peito dele num gesto de conforto. Ela podia sentir a dor de Jake como
se fosse a sua prpria, podia escut-la em sua voz.
         -- O que  realmente revoltante  saber que eu paguei para matar o meu prprio
filho.
         -- Voc no pode pensar assim, no teve culpa.
       -- Todos ns somos responsveis por nossas aes, Charlotte, e pelo efeito que
elas causam queles a nossa volta. Ela era minha noiva, no porque eu a amasse muito,
mas por necessidade, e eu deveria ter sido mais prudente e no ter confiado nela. Mas
aprendi. Nunca mais cometi o erro de confiar em uma mulher novamente.
      -- Mas nem todas as mulheres so como sua ex-noiva e no pode querer viver
sem nunca confiar em algum -- disse, gentil.
         Jake voltou para o seu lado da cama.
      -- Tenho me sado muito bem at hoje -- disse, colocando-a sobre seus braos.
-- Esquea o que eu disse, voc tem a detestvel habilidade de me fazer revelar mais,
do que devia.
      Charlie apoiou-se em um dos cotovelos. Jake estava to contido e to
devastadoramente atraente que ela sentiu uma raiva crescer dentro dela.
      -- Como pde dizer isso? -- Ficou paralisada como se algo a tivesse atingido:
Jake insistia no casamento no apenas pelo beb, mas tambm pelo que ele havia
perdido.
      -- E bem melhor do que ter de escutar a sua psicologia idiota no meio da noite.
Tenho de viajar ao Japo amanh e preciso dormir. -- Virou-se e foi dormir no outro
quarto.
       Seus olhos encheram de gua. A euforia que havia sentido nos braos dele deu
lugar a uma crescente certeza de que Jake s a veria como a me de seu filho e uma
transa conveniente quando a libido tomasse conta dele, nada mais.
      Charlie enxugou as lgrimas, decepcionada com si mesma por ter sido to boba e
amar um homem que no sabia o significado desse verbo e nem queria saber. Quantas
vezes ela o deixaria us-la para depois ser rejeitada? Ela merecia mais do que isso.

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      Encare isso, disse a si mesma. Afinal, Jake estava completamente feliz da
maneira que era. No estava preparado para escutar e tinha lhe dado as costas.
       Charlie sentia-se lnguida, ento recusou o pedido do pequeno Aldo para brincar
e resolveu dormir um pouco. No havia dormido nem comido muito desde a viagem de
Jake cinco dias antes. Ele havia ligado todos os dias, mas a conversa era sempre curta.
Ela tinha chegado ao limite. E no tinha mais tanta certeza de que se importava com
isso.
      Parecia que estava vivendo num mundo turvo, onde no havia nada ntido,
nenhuma certeza ou propsito em sua vida, s o beb que carregava. Havia sido uma
mulher de iniciativas, mas agora parecia incapaz de torn-las, e no gostava da mulher
que havia tornado. Jogou-se na cama e fechou os olhos, esperando que ao dormir
pudesse esquecer seus problemas.
      Estava cedo quando se levantou, calou as pantufas brancas e foi at a cozinha.
Tomou um copo inteiro de suco e o colocou no banco. De maneira casual, olhou ao redor
e imaginou onde todos haviam ido.
       Caminhou at o ptio e escutou pessoas falando alto, provavelmente uma
discusso, e o grito aflito de algum animal com dor. Andando em direo aos fundos da
casa, olhou para o jardim de pedras que funcionava como uma barreira natural contra
o mundo exterior, e abriu a boca, chocada.
     Maria estava em frente  caverna chorando muito. Tomas tentava confort-la e
Marcos falava ao celular. Os outros seguranas da guarita examinavam a rocha.
      Charlie escutou o mesmo grito e foi ao encontro dos outros, e, quando levantou
a cabea, seu corao disparou, em choque. No era um animal, era Aldo.
      Perto da entrada da caverna havia uma fenda estreita e profunda que se abria
quase at o topo da rocha. Aldo, de alguma forma, conseguiu escalar at a abertura da
fenda. L havia um pssaro colorido, com certeza o motivo que o levou a essa perigosa
escalada. Infelizmente, com as mos pequenas no conseguia subir mais, parecia preso.
       Avaliando a situao com rapidez, Charlie no hesitou. Todos os trs homens
eram muito grandes para passar pela fenda, ento ela explicou a Marco, quem melhor
falava ingls, o que iria fazer. Ele tentou lhe dizer que o grupo de salvamento estava a
caminho, mas ela viu que a posio de Aldo era muito perigosa e que poderia ser tarde
demais. Charlie disse isso a eles e assegurou:
      -- Sou uma escaladora experiente, confiem em mim.
      E segundos depois comeou a escalar. Olhando para cima, falava palavras de
encorajamento a Aldo. No tinha dvidas de que ia conseguir alcan-lo, tinha de
conseguir. S no sabia se seria capaz de traz-lo de volta em segurana. Seus olhos
experientes concluram que o topo da fenda era sua maior chance. Com sorte ela
conseguiria apoi-lo l e esperar pela equipe de salvamento.
      Quando chegou mais acima e a fenda se abriu novamente, sentiu o suor em todo

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o seu corpo e lutou para encontrar lugares para colocar os dedos. Parou para respirar,
pensou no beb em sua barriga e rezou para que seu esforo no lhe causasse mal.
Com uma mo, agarrou-se a um pequeno buraco. Olhou rapidamente para baixo e viu
que todos a olhavam com medo. Forou um sorriso confiante para acalmar Marta e
procurou por outro lugar para se apoiar, escutando ao longe o barulho da sirene.
      Com o peito pesado, olhou para Aldo.
      -- Fique parado, Aldo, no se mexa. Fermaressere -- disse, gentil, esperando
ter usado a palavra certa. No queria que ele ficasse mais assustado do que j estava.
Charlie respirou fundo e com o corao batendo forte tentou uma ltima vez. Suas
mos e pernas doam, ela lutou at conseguir ficar ao lado dele.
      -- Charlie -- disse ele ao v-la, com o olhar apavorado e o rosto cheio de
lgrimas.
      -- No se mexa, est tudo bem. Estou aqui. -- Usando toda a habilidade de anos
de treinamento, encontrou lugar para se segurar e colocou seu corpo sobre o dele.
Conseguiu alcanar com um brao o topo da fenda.
      Essa era a parte mais difcil, Charlie sabia. Ela podia ficar l e esperar pelo
resgate, mas no acreditava nessa possibilidade, pois qualquer movimento dele
provavelmente a deslocaria. A alternativa era segurar firme no topo da fenda com uma
mo e conseguir suspend-lo.
      Falou com ele calmamente, pedindo que fosse corajoso, que ficasse calmo e
fizesse exatamente o que dissesse, e rezou para que ele entendesse.
      Jake reclamou muito ao passar com sua Ferrari pelos portes abertos. Para que
pagar seguranas se eles deixavam o porto aberto? "Algum vai pagar por isso",
pensou ele. No sabia o que estava fazendo na Itlia, se ainda tinha compromissos no
Japo. Mas desde o dia anterior, quando Charlie desligou o telefone na sua cara,
sentia uma vontade irracional de v-la novamente. Algo estava errado, ela no era
assim. As portas estavam abertas. Dio! Por favor, Charlotte, no, rezou ele ao entrar
gritando seu nome. Fugiu, foi seqestrada ou pior que isso, ele no sabia, s sabia que
tinha de t-la novamente.
      Seu peito doeu. Como pde ter sido to burro? Ele, presidente de uma empresa
internacional, conhecido por sua habilidade para tomar as decises certas.
     Ao entrar na cozinha, viu a porta aberta e foi at os fundos da casa. Viu que
Marcos e o segurana olhavam para a rocha.
      -- O que vocs acham que esto fazendo? -- perguntou, mas ficou paralisado
quando apontaram para a rocha.
      Ele olhou para l, o sangue que corria em suas veias congelou. A sua Charlotte
estava l em cima.
      Ele tentou escalar, mas o impediram, dizendo-lhe que era intil. Ele era muito
grande e era tarde demais, a senhora estava quase conseguindo.

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      Ele arregalou os olhos e abriu a boca para gritar que a mataria por ser to
burra, mas desistiu quando percebeu que ela estava em perigo.
      -- No, Dio, no -- gritou, com o corao na garganta. Ele a viu hesitar e depois
segurar-se com firmeza. No se importava com Aldo, s com Charlotte.
      No escutou as sirenes, estava cego e surdo para tudo no mundo, menos para
Charlotte. Pela primeira vez, sentia-se impotente, nem seu dinheiro nem sua fora
poderiam mudar aquela situao. Ela soltou uma das mos e colocou a outra ou redor
da cintura do menino. Jake assistia apavorado, sentia a agonia que ela deveria estar
sentindo. Ela conseguiu suspender ambos at o topo da fenda com uma fora sobre-
humana.
      Mas ainda no havia acabado. De repente, ele se deu conta dos carros de polcia
e dos bombeiros, todos ao seu redor.
      Charlotte estava deitada na rocha, lutando para respirar, com seus braos ao
redor de Aldo, que chorava.
      -- No se mexa -- disse, enquanto, de olhos fechados, rezava em voz baixa,
agradecendo. Quando abriu os olhos, ficou aliviada. Algum iria tir-los dali. Aldo se
mexeu e ela o segurou com mais fora.
      -- Mas quero meu pssaro disse inocente, e ela riu ao ver que ironicamente o
pssaro voou para baixo da fenda.
      Ainda sorrindo disse ao bombeiro para pegar Aldo antes. Eles chegaram ao solo
em poucos segundos e a primeira pessoa que ela viu foi Jake. Achou que estava tendo
uma alucinao.
      -- Jake, o que est fazendo aqui? -- gritou e sorriu, mais por alvio do que
desejo de ver seu marido.
      Os braos de Charlie estavam arranhados e o joelho sangrando, e ela sorria
como se estivesse voltando de uma caminhada no parque. Ele estava quase morrendo
de susto e ela...
      -- Cale a boca, Charlotte -- gritou e a tomou em seus braos segurando-a firme
junto a si.
      Chocada, Charlie olhou para ele. Havia sido treinada para permanecer calma
numa crise, mas Jake certamente no. Ele a segurou ainda mais forte e ela o afastou.
      -- Por favor, voc est me machucando. Acho que arranhei minhas costas.
      -- Arranhou suas costas? Meu Deus, mulher, voc teve sorte de no ter
quebrado o pescoo, voc est louca? Pelo amor de Deus, voc esta grvida. Est
querendo morrer?
      -- Isso se chama compaixo, algo que voc no conhece. -- Ele no poderia ter
deixado mais claro que era apenas com o beb que se importava.
      Parecia que a raiva escapava de seu corpo. Sua linda Charlotte o olhava com
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desdm e ele merecia. Jake gritava com ela como um louco, em vez de confort-la.
Finalmente, ele reconheceu o que havia tentado negar com arrogncia e prepotncia.
Ele a amava. Abriu a boca para dizer isso a ela, mas o momento se perdeu quando o
caos tomou conta da situao.
      Marta tomou Aldo nos braos, debulhando-se em lgrimas e beijou a mo de
Charlie, agradecendo-a sem parar. Charlie sussurrou algo, envergonhada. A polcia e os
bombeiros se espremiam ao seu redor parabenizando-a, e durante todo o tempo Jake
estava atrs dela, com as mos em sua cintura.
      Toda aquela gente, o calor, o barulho, estavam deixando-a tonta, suas pernas
fraquejaram e pela primeira vez na vida ela desmaiou.




      CAPTULO DOZE


      Lentamente Charlie abriu os olhos e se viu na cama da sute principal. Jake
estava sobre ela, com o rosto abatido e os olhos cor de carvo sob plpebras semi-
cerradas.
      -- Est acordada, graas a Deus. Como voc est? Onde di? -- perguntou ele,
com voz no muito firme. -- Voc est bem?
      -- Por favor -- suspirou ela, ajeitando-se na cama. -- Estou bem.
      A nuvem que anuviava seu crebro finalmente se dissipou. Escalar aquela rocha,
fazer aquilo em que era boa a tinha revigorado, trazido confiana. No precisava da
preocupao de Jake, no precisava dele. Virou-se para ele e perguntou:
      -- E Aldo? Est bem?
      -- Est, nenhum arranho. Mas  com voc que estou preocupado.
      --No precisa. Estou bem, mas o que voc est fazendo aqui?
       -- Eu  que deveria estar perguntando. Voc decidiu escalar uma rocha para
resgatar o diabinho e no esperou o servio de emergncia. Dio, quando a vi subindo ao
lado do Aldo.., -- e sacudiu a cabea, descrente -- quase perdi a cabea. Achei que ia
cair na minha frente.
      -- Bem que voc queria -- zombou, tirando a mo da dele. A preocupao de
Jake era pouca e tardia.
      -- Isso no  um jogo. No faa piadas. Voc  minha mulher, est carregando
meu filho e poderia ter matado vocs dois.
      Ela jamais faria algo para prejudicar o beb e foi o mais cautelosa possvel. Mas
no era de sua natureza ver uma criana em perigo e no fazer absolutamente nada.
Marta surgiu com o dr. Bruno. Charlie gostou da interrupo. No queria ver Jake, nem

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discutir com ele.
      Preferiu ignorar Jake enquanto o dr. Bruno a examinava e anunciava que o beb
estava bem. Depois a parabenizou pelo ato de herosmo. Charlie ficou sabendo,
horrorizada, que tinha aparecido no noticirio.
      -- Mas como? Eu vi voc arrancando a cmera daquele homem!
      -- As viaturas so equipadas com cmeras que filmam os resgates -- disse Jake,
aborrecido. -- Voc  o assunto principal dos noticirios locais.
      -- Meu Deus!
      -- Na verdade, provavelmente a nossa casa ficar infestada de paparazzi.
      -- Jake -- interrompeu o dr. Bruno -- No aborrea sua esposa; o dia j foi
muito intenso para ela. Mas ela est em boa forma e  jovem, o beb est bem, ento
no h nada com que se preocupar.
      -- Voc tem certeza?
      -- Eu sou o mdico aqui, posso garantir que Charlotte est bem.
      -- Mas ela perdeu a conscincia -- relutou Jake.
     -- No perdi a conscincia. Eu desmaiei. E desmaiei porque comi pouco no caf-
da-manh e no almocei, e depois de todo esse esforo, eu estava morrendo de fome.
      -- A est -- riu o dr. Bruno. -- Quando um paciente tem fome no h nada de
errado com ele. Charlotte, alimente-se e descanse e nada de escaladas at o
nascimento do beb. -- E voltando-se para Jake, acrescentou: -- E voc, tome conta
de sua esposa. No entendo vocs jovens no mundo de hoje. Na minha poca, um
marido jamais pensaria em deixar a mulher sozinha logo depois do casamento.
      Jake no pronunciou uma s palavra. O mdico tinha razo. Olhou para
Charlotte. Tudo o que tinha feito at agora foi repreend-la. Como ela saberia que era
tudo por medo de perd-la?
      De banho tomado e j ajeitada na cama, Charlie havia comido um delicioso prato
de lasanha caseira e uma enorme fatia de bolo de chocolate. Ela se recostou nos
travesseiros. Havia sido um dia muito traumtico, mas que tinha ajudado a esclarecer
algumas idias sobre seu casamento. Iria voltar para a Inglaterra, Jake gostando ou
no, e iria avis-lo assim que o encontrasse. Mas no hoje. Estava cansada. Ouviu um
barulho  porta.
      Era Jake. Parecendo abatido, ele se dirigiu a ela.
      -- O que voc quer? Eu estava tentando dormir. Os olhos de Jake vagaram pelo
corpo de Charlie.
      Ela estava de camisola curta e puxou o lenol para mais junto de si, ficando
nervosa com o silncio prolongado.
      -- Voc no deveria estar no Japo?

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Jacqueline Baird                                             Entre o Amor e a Vingaa
      -- Mas a minha esposa desligou o telefone na minha cara e, por mais que voc
no acredite, eu me preocupo com voc. -- Ele alcanou a mo de Charlie. Ela tentou
desvencilhar-se, mas ele a apertou com fora. -- Por favor, me escute. Pensei muito
durante o vo para c e percebi que eu no fui sincero com voc, porque no estava
sendo comigo mesmo.
      Charlie teve a certeza de que sabia o que ele ia falar e interrompeu:
     --- Voc no precisa explicar. Eu j sei. Nosso casamento foi um erro e ns dois
sabemos disso. Voc sempre quis o filho e no a mim. E nem adianta negar.
      -- Nunca foi... -- Jake tentou comear, mas ela o calou.
       -- Deixe-me terminar. Cheguei a pensar que eu poderia viver em um casamento
somente por meu filho, mas descobri que no posso. Vou voltar para a Inglaterra. Mas
no se preocupe, no o privarei do nosso filho. Podemos chegar a algum acordo ami-
gvel.
      -- Acordo amigvel? No quero um acordo amigvel! -- gritou, arrogante. -- O
que eu quero  voc e estou tentando dizer que amo voc, droga!
      -- Ah ? -- duvidou Charlie.
      Os olhos de Jake penetraram nos dela. E um pequeno msculo de sua mandbula
se contraiu, mostrando que tentava manter o controle.
      -- Eu amo voc, Charlotte. Acho que amei desde o momento em que a vi, mas
tentei me convencer a no acreditar em amor.
      -- E agora voc me ama. Que conveniente, logo depois de eu dizer que vou voltar
para casa. -- Mas ele parecia to sincero.
      -- No, o amor no  conveniente, Charlotte. Percebi ao longo dessas semanas
que estivemos juntos.  uma dor, uma fome, uma necessidade que nos consome. Tentei
me convencer de que voc no era diferente das outras -- declarou, afastando uma
mecha de cabelo de Charlie. -- Quando voc desligou o telefone na minha cara, pela
primeira vez na minha vida, eu senti medo. Peguei o avio imediatamente. Pensei que
tinha me deixado ou sido seqestrada.
      -- Voc deve estar aliviado com o dinheiro que lhe poupei -- provocou Charlie.
      Jake olhou-a fixamente.
      -- Voc pensa to mal de mim assim? Ento pode ir embora quando quiser. No
h nada mais a ser dito -- declarou retirando-se.
      -- Penso, penso sim! -- gritou. -- Voc tambm pensou mal de mim, lembra? Uma
mulherzinha egosta e gananciosa vendendo as pinturas do pai s pelo dinheiro.
      Jake virou-se, com os olhos duros como pedra.
      -- Eu nunca disse isso,  voc que est dizendo.
      -- Mas pensou. Fique sabendo que o dinheiro das obras do meu pai vo para o

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Jacqueline Baird                                            Entre o Amor e a Vingaa
fundo de recuperao ao terremoto. E quanto  egosta aqui no querer encontrar sua
irm, isso foi idia de meu pai. Eu o flagrei uma vez com uma mulher. E como todos os
mulherengos, ele era rigoroso quando o assunto era a prpria filha. No sei o que ele
disse a Anna, mas no tenho nada a ver com isso. Voc  to superprotetor em relao
 sua irm quanto meu pai foi comigo e voc ser com seu filho. Sabe de uma coisa?
Ainda bem que vou embora. Voc no passa de um viciado em trabalho e
megalomanaco, e eu odeio voc.
      Por alguns segundos, Jake ficou em choque. No podia negar que a havia julgado
daquela maneira. E foi um covarde por nunca ter admitido seu amor por ela.
      -- Voc ainda est aqui? -- perguntou Charlie com sarcasmo.
      -- No vou a lugar algum.
      -- No? Ento eu vou.
      -- No, no vai -- declarou Jake, catando-a delicadamente. -- Sou tudo o que
voc disse, Charlotte. No sou muito bom nisso, porque nunca amei ningum antes. Mas
no agento v-la chorar, se machucar ou em perigo. Dio! Amo tanto voc que no vou
deix-la ir.
      No havia dvidas de que estava sendo sincero.
      -- Amo tudo em voc -- murmurou ele, baixinho. -- E nenhuma mulher jamais me
confundiu e frustrou como voc. Nem me magoou.
      -- Magoar voc? -- perguntou Charlie. -- No pensei que fosse possvel.
     -- Mas , posso garantir -- afirmou, deitando-a sobre os travesseiros e
tomando-a pela boca com a ardente paixo de sua natureza arrogante.
      E ela suspirou contra os lbios dele, pressionando-os mais.
       -- Eu queria tanto voc, mas no dia do casamento, Dio, Dave me contou o que
havia feito e senti vergonha de no ter sabido. E pensei que eu era o homem mais feliz
do mundo. E na nossa noite de npcias, eu precisei de voc, estava louco por voc. Nem
acreditei quando falou da Anna e da pintura. J tinha desistido da vingana havia
muito tempo. Foi uma idia do momento. Mas quis destruir nossa noite de npcias,
embora no saiba admitir o porqu.
      -- Aquela revelao me chocou.
     -- No tanto quanto a mim quando mencionou o quadro naquela noite. No sabe
como me doeu ver a dvida e a falta de confiana nos seus olhos. Fiquei irado.
      -- Voc me disse que casou s por causa do beb -- lembrou Charlotte, com
esperana crescendo no corao.
      -- Menti. No casei com voc porque estava grvida, nem por nenhuma outra
razo, mas porque eu precisava de voc, s de voc -- confessou, acariciando os
contornos dos lbios de Charlotte. -- E voc estava errada. Eu no sou superprotetor.
Nunca protegi o meu filho que foi abortado, nem a minha irm e nem voc, como o dr.
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Jacqueline Baird                                              Entre o Amor e a Vingaa
Bruno ressaltou. Mas se voc me der uma segunda chance, Charlotte, prometo cuidar
de voc e do nosso filho para sempre. Voc  o amor que eu nunca acreditei existir. E
eu desejo muito voc -- declarou, mirando as curvas delicadas dos seios dela
levemente cobertos pela camisola de cetim e pressionando-lhe a boca em um beijo
doce. - Voc  to maravilhosa que nem consigo raciocinar, muito menos falar sobre
algo sensato, mas, por favor, diga que vai ficar -- implorou. -- Voc j me amou uma
vez. Deixe-me convenc-la a me amar de novo. -- E a beijou novamente at que ela
comeou a tremer de emoo.
      -- Jake -- murmurou ela, com a mo espalmada sobre o largo peito do italiano.
Mas o afastou de si. -- Por favor, eu preciso ter certeza de que est realmente sendo
sincero. A primeira vez em que fizemos amor, voc virou de costas para mim e saiu
enraivecido. Por qu? Foi alguma coisa que fiz ou deixei de fazer? -- Precisava saber
para no ser deixada mais uma vez.
      -- Querida -- ele lhe deu um beijo que a deixou sem flego. -- Eu ficava to
enlouquecido s de olhar para voc, porque tnhamos acabado de transar e eu a
desejava de novo. No entendia as sensaes que me tomavam ao simplesmente beijar
voc. Alm do mais, ainda estava chocado com o retrato de Anna, que eu tinha
descoberto apenas horas antes de conhecer voc. Eu me senti culpado. No estava
entendendo a mim mesmo. Precisei ir embora ou acabaria revelando meu desespero por
voc.
      -- Voc me desejava tanto assim? -- perguntou Charlie.
      -- E ainda desejo, sempre desejarei.
      Mas ela no estava completamente convencida.
      -- Se isso for verdade, por que no me tocou mais desde a noite de npcias?
Voc me ignorou -- protestou Charlie. -- E quando finalmente transamos de novo
depois da festa, voc explodiu em dio outra vez.
      -- Isso aborreceu voc, no ? -- disse com um sorriso irnico e apaixonado. --
Voc queria fazer amor comigo.
      -- No, quer dizer, sim.
      -- Ah, Charlotte. Voc tem de aprender a minha lngua. -- Ele a beijou
novamente, a lngua acariciando e explorando a boca de Charlie, e ela inspirou quando
ele ergueu a cabea e sorriu para ela, com os olhos negros faiscantes de amor e
emoo. -- O dr. Bruno me disse que os primeiros meses de gravidez so os mais
importantes e que era melhor evitar ter relaes com voc. Mas aps uma semana de
abstinncia, no consegui resistir e me irritei comigo novamente, e no com voc.
      -- Jake, essa  uma idia arcaica -- declarou ela. -- At eu sei disso.
      -- Voc deveria ter me contado. Teria poupado algumas noites sem dormir e
muitos banhos frios. -- Ele a abraou, com a respirao quente contra a face de
Charlie. -- Toda noite, eu assistia aos vdeos da segurana s para ver voc brincando

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Jacqueline Baird                                             Entre o Amor e a Vingaa
com Aldo e, antes de vir para a cama, eu observava seu sono durante horas. Sabia que
amava voc, mas ainda relutava. Mas hoje, quando voc salvou Aldo e gritei com voc,
sabia que no podia mais esconder. Fiquei to perto de perd-la. -- Aquela confisso
era msica para os ouvidos de Charlie. Ela o fitou e o amor estava ali para ela ver. Ele
estava deitado ali de corao aberto para ela. Envolvendo-lhe os braos, ela
murmurou:
      -- Voc disse a verdade agora e eu acredito em voc. Tenho de acreditar
porque o amo desde o dia em que o conheci.
      -- Finalmente. -- Jake suspirou, com olhos triunfantes. -- Voc  minha agora e
para sempre. -- E sua boca tomou a de Charlie em um beijo profundo.
      Charlie sentiu o calor se espalhando pelo corpo  medida que a boca de Jake
escorregava para seu pescoo e descia para a curva delicada de seus seios. E num
mpeto ele mostrou como a amava.
       Em seguida, pressionou-a contra seu corpo rijo e examinou aquele lindo rosto, os
olhos ardentemente azuis e a pele dourada.
       -- Charlotte, me perdoe por toda a arrogncia, por cada palavra grosseira --
disse, delicado. -- E prometo passar o resto da minha vida fazendo valer a pena e
amando voc.
      EPLOGO
       Nove meses depois, Charlie observava a praia por trs do casaro. Haviam
chegado na ilha caribenha na noite anterior. Pertencia a um amigo de Jake, que alugava
a casa para hspedes selecionados. Privacidade absolutamente garantida. Um sorriso
malicioso surgiu em seus lbios quando viu Jake deitado em uma espreguiadeira, com
a mo estendida para o bero onde Samantha, a filha de trs meses, dormia. Para
Jake ela era sua menina dos olhos. Estava embevecido por ela. Antes descrente com as
mulheres, agora se dedicava inteiramente ao querubim de olhos castanhos.
     Charlotte olhou ao redor e desceu para a praia. Jake percebeu e ficou de p,
com um olhar indescritvel enquanto ela se aproximava.
      Ele alcanou-lhe os ombros e beijou-a avidamente.
      --  voc e a filha perfeita que me deu que eu amo. -- E deu-lhe mais um beijo.
       -- Daquele dia na Kew Gardens  verdadeira ilha paradisaca. -- Charlotte sorriu.
-- Nunca pensei que conseguiramos, mas conseguimos. Ns trs -- murmurou ela, com
olhos azuis radiantes de felicidade e amor.




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      Jssica


      COMPRA-SE UMA ESPOSA
      Helen Bianchin
      J NAS BANCAS


      Nic Leandros estacionou o seu poderoso Lexus na garagem subterrnea de um
luxuoso prdio localizado em Double Bay, Sidney. Seguiu para o hall dos elevadores.
No precisava checar o nmero do apartamento ou o andar onde estava situado, pois
era mais um dos muitos de propriedade da Corporao Leandros e ocupado at
recentemente por seu meio-rmao.
       Seis anos mais novo que Nic, Vasili chegara na famlia Leandros com muito amor
h vinte e um anos. Para seu pai, era uma alegria, e o grande xod de Stacey, a querida
madrasta de Nic.
       Nic pensou na amizade que tinham um pelo o outro, apesar da diferena da
idade. A educao que Vasili recebeu foi idntica a sua: severa, mas com muito amor.
      No entanto, Vasili tornara-se negligente como Nic nunca poderia imaginar. Ele
passou pela escola, formou-se em administrao de empresas e entrou na Corporao
Leandros pelo primeiro degrau da escada... assim como Nic, prosperando sem o mnimo
esforo aparente.
      Bonito e divertido, Vasili tivera paixo pela vida, por mulheres e carros
possantes... nesta ordem. Tragicamente, fora um carro possante que causara sua a
morte h pouco mais de duas semanas.
      Nic estivera a par da quantidade de mulheres que faziam de tudo para ter a
companhia de Vasili, dividir a sua cama e sua parte na fortuna dos Leandros. No
entanto, Tina Matheson era a primeira mulher que Vasili convidara para morar junto
com ele.




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